2009-04-26

NATUREZA MORTA

 


Olhou-me com aquele olhar distante dos desconhecidos. Era de uma espécie diferente, mas que, como eu, transitava displicentemente como se fôssemos deuses. Cada um no seu caminho, sua concepção de mundo, seu universo interior. Parecia doente, pois suas atitudes e gestos denotavam total falta de compromisso com o que quer que fosse. Sua serenidade insensata se espalhava por todo o seu corpo e parecia então um boneco desengonçado. Seu destino incerto o levava a um lugar de miríades de ninfas seminuas tocando harpas celestiais. Não se lembrava de onde era, quem o criara, nem ao menos sua ascendência, ou mesmo sua decadência. Era completamente dono de si. Seu nariz apontava para a frente, e ele o seguia sem pestanejar, sem pedir passagem. Ignorou-me quando eu, assim como ele, me perdia em meio ao calor do meio dia na serra do curral.
Passou devagar, as roupas sujas e esfarrapadas escorregando pelo seu corpo maltratado e desnutrido. Seu olhar mortiço a tudo observava, esperando encontrar algo que lhe apetecesse, um resto qualquer de comida, uma guimba de cigarro falsificado, um picolé caído ao chão ou, milagre dos milagres, uma garrafa com um gole da amiga cachaça, do que se abstinha há muito tempo e isso lhe causara um frisson incontrolável. As mulheres que desfilavam diante de si não chamavam a atenção dos seus olhos dementes. Os homens também não despertavam qualquer interesse, fossem ou não abastados e bonitos. Quando seu olhar cruzou com o meu, notei a profundeza de um abismo sem fim, contrastando com o meu. Por um momento fomos solidários, éramos irmãos, tínhamos o meu sangue. Eu poderia estar no seu lugar, catando migalhas da vida, completamente resignado de ser um inútil, um paria, enquanto ele poderia estar tranqüilamente tomando um sorvete de passas ao rum, pensando no que haveria de fazer no momento seguinte.
Ele passou, olhando cuidadosamente em volta. Seu senso de limpeza era impressionante. Seu olhar percorria a rua e varria as calçadas. Onde havia um cisco, uma folhinha seca, um pedaço de papel sujo, ele se agachava imediatamente, recolhia o lixo, e o levava a uma distância onde já providenciara um pequeno depósito.
Ele se arrastava na calçada da Praça Sete, num calor terrível e sentia sede. Mas sua sede não se mitigava com qualquer coisa. Se lhe oferecessem um guaraná. Talvez dignamente recusasse. Seu aspecto moribundo provocava reações e náuseas em todos os transeuntes. Foi então que ele se agachou com seus trapos e, numa poça de lama que saía do esgoto do prédio na Rua São Paulo, bebeu aquele líquido escuro e fétido, diante do olhar estupefato de todos nós.


TESTANDO


I'm awoke and my she dog barks
Listening a Supertramp's song
And I'm all by myself
The wife sleeps beside me
All the people left me now

I might to take care of my heart
Putting in it the best things
The better memories
Taking off the worst moments
Who is the man that knows
Exactly what his soul is asking for
But there is some doubt
Doubts are bad


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2009-02-02

Teste

H-010209

2009-01-24

Dor Sem Data

No fim de noite


Em que vem como açoite


Esse manto de solidão


Sinto o peso na mão


Quando palavras vomito


Num incontido grito


De profunda dor


Pelos meus rebentos sem cor


Que não tem pai


Não se lembram se sai


Ou se volta aquele que


Insignificante ser


Que um dia os gerou


Que sofreu por amor

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2007-10-25

Paciente

Enquanto vivo, espero a morte


E se eu tiver alguma sorte


Ela vem sem que eu sinta


Embora assim eu também minta


Pois não a desejo tanto assim


Que ela fique longe de mim


Pois tenho ainda muito pela frente


Tenho que fazer feliz uma gente


Que me espera em algum lugar


Pronta pra tudo, só pra me amar


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2006-04-08

Ecos do Silencio

Ecoa no meu silencio a voz retumbante de minha vida, em suspenso. Diante do espelho de minha experiencia, a tolerancia comeca a se esvair e uma apreensão doentia toma posse de mim. Quero respirar novamente, mas nao posso. As paredes que me cercam, e a cada instante me apertam..

Transição

Minha mente embotada, os sentidos lassos, as veias palpitando de expectativa. Existe um universo a descobrir, e é totalmente novo. Os renovos da minha ansiedade se transmutam em doces reminiscências, quando tolas circunstâncias vem tirar a minha alegria. Mas não há tristeza que subjugue todas as conquistas de então, quando a vida se desabrocha como uma rosa verdadeira, inundando todos os dias com seu perfume sutil e duradouro, como o sol que agora brilha tão intensamente que é impossível que não seja notado.

2006-03-30

Quem és

Quem és tu. fantasma taciturno

Que à noite não me deixa dormir

Infligindo dores que não quero sentir

Despreparando-me para o labor diurno?

 

Quem és tu, fantasma invisível

Cuja cama ao meu lado parece vazia

Me atormentas com tamanha agonia

Com o teu arrastar constante e terrível?

 

Quem és tu, figura intrigante

Que me perturbas de forma constante

Fazendo-me desejar a luz do dia?

 

Quem és tu que à noite me assaltas

Roubando-me o sono, lembrando minhas faltas

Tirando-me a esperança que eu ainda sentia?

 

Na Rodoviária

NA RODOVIÀRIA
O homem baixinho e vermelho, usando um chapéu preto de sofisticado mau gosto, exibe sua barriga já um tanto flácida. A mulher da limpeza se detém para conversar, numa atitude tipicamente brasileira, com o pai de um menino que a todo instante atira seu carrinho longe, obrigado o pai a servi-lo como um escravo. Certamente a mulher estará dizendo que criança é assim mesmo.
Mulheres de seios fartos, todas desprovidas de qualquer tipo de beleza (talvez tenham a interior, mas não estou vendo), desfilam numa coreografia estranha, enquanto um homem mastiga um sanduíche que acabou de retirar de um saquinho de papel, usando os parcos dentes que ainda lhe restam. Uma mulher passou por mim, olhando-me nos olhos como as mulheres olham. Outro homem abre seu descomunal pacote de biscoitos voadores. Espero sinceramente que não seja ele meu vizinho de poltrona no ônibus.
Enquanto escrevo, meu estômago dá reviravoltas mirabolantes, fazendo-me enjoar. Coitado do meu futuro vizinho de poltrona. Dois policiais exibem seus glúteos diante da multidão. Um rapaz louco de bermudão laranja saca de repente seu sanduíche de pão francês. A mulher magra de seios grandes passa apressada e logo depois volta correndo com um bilhete de passagem na mão.
Então de repente a surpresa: aparece a primeira mulher bonita de Campinas. Com o namorado.
Minhas pernas agora tremem, não me sustentando,a doença me consumindo desde que cheguei a esta cidade, e parece querer acabar comigo quando me despeço dela. Mas estou sentado, mesmo assim a sensação é horrível. Quero regurgitar (gostei desta palavra, não é mais bonita que vomitar?). Pelo menos me consolo lembrando que não comi nada, já faz dois dias. Madonna solta sua voz no alto-falante da rodoviária
 
Uma mulher gorda e enorme, de cabelos de fogo, carregando uma bolsa também assustadora, entra faminta na lanchonete. O velho do sanduíche conta suas moedas e logo vai comprar um outro pacote de biscoitos. Ele veste um blusão exótico, estampado, um pouco inadequado para o calor que faz aqui. Imagino-me uma Karen Carpenter, guardadas as devidas proporções, vendo tanta gente comendo tanto. Duas adolescentes gordas de seios grandes passam com o seu papai gordo, cujos seios flácidos (do papai) se evidenciam sob a blusa. Param diante do balcão de vidro de uma das lanchonetes e se empanturravam de delícias. Nisso passa um homem apressado, vestindo-se a rigor, parecido com o George Clooney. Olha para mim, doce e significativamente. É campinense, pensei. Neste momento a minha cabeça gira, estou a ponto de desmaiar, mas reuno as forças para não fazê-lo, pois desmaiar em Campinas é uma evidência indiscutível de que se provou a água do lugar, contra o que fui previamente advertido. A cena corriqueira de sorver em goles prazeirosos uma coca cola me trazem ânsias de vômito, e não estou grávido.
A loura feia que estava à minha frente agora se levanta e vem se sentar ao meu lado. Parece-me triste, solitária e sonolenta. Mas é um ledo engano. A loura continua triste, solitária e sonolenta, mas quem está ao meu lado é uma nissei, que logo se levanta (devo ser um tipo sem graça e desinteressante), desaparecendo como por encanto.
Uma velhinha com a cara da Sabrina, minha distraída enfermeira da Bosch, passou rapidamente. Quis agradecer pela brilhante frase com que ela me consolou : "O senhor precisa de um médico!". Se ela não tivesse dito, eu jamais pensaria nisso.
Continua o desfile de figuras abstratas diante dos meus olhos. Uma velha magérrima, vestida totalmente, até onde os meus olhos conseguem divisar, de preto, arrasta o seu marido (cujo nome deve ser Montgomery Adams). Sabrina vai à lanchonete. A loura dorme. Vem então uma moça bonita de olhos negros e profundos. Nas cadeiras à minha frente, um rapazinho veste touca e jaleco de malha. Ao seu lado um gigante careca conversa animadamente com outro rapaz magro e dark. A loura acordou e està me olhando como as mulheres olham. Agora dormiu de novo.
Uma velhinha elegante se assenta ao meu lado. À sua frente se instala um casal ostensivamente em pé, cercando-a de mimos, tipo : "quer um docinho, um refrigerante, água, café, biscoito, revista, almofada, cobertor"?. Todos com o indefectável sotaque campinense, o "r" vibrante. Nunca mais vi Sabrina, minha enfermeira. Vem então uma mulher totalmente vestida de azul calcinha,cujo rosto parece uma máscara de carnaval, destas que se encontram em lojas de doces de Belo Horizonte. Um homem com um cigarro aceso entre os dedos me pede dinheiro para um lanche. Ignoro-o totalmente. Um rapaz veste uma camisa de futebol. Até aí tudo normal. Mas estão estampadas duas palavras totalmente fora de época : Excel e Econômico, dois bancos definitavamente falidos. Triste tendência deste jovem.
Volta a mulher com carranca de carnaval. A loura dorme. Uma meninha grita atrás de mim. Sou louco com menininhas, sem qualquer tendência para a pedofilia. Olho pra trás e ela está fazendo gato e sapato de sua enorme mãe.
Estou delirando agora, de tanta dor. Apanho minha bolsa pesadíssima e deixo-a no guarda-volumes. Vou ao banheiro e lá encontro algo inusitado. Na porta da privada, no lado interno, está escrito em letras garrafais um anúncio de oferta de préstimos homossexuais bilingues, com telefone e tudo.
Volto ao saguão de espera. O meu antigo lugar foi usurpado. Vou para os fundos. De longe vejo a loura sonolenta. Cai uma chuva torrencial em Campinas. Meus companheiros de curso na Bosch são capazes de jurar que estou indo de avião, e podem estar agora preocupados comigo. Mas estou indo de ônibus, se sobreviver até lá, e com isso eu é que me preocupo. Falta uma hora exatamente para a minha partida de ônibus ou avião, se não partir desse mundo antes.

Mulher Campinense

Mulher campinense de fartos seios
Que passa apressada não sei para onde
Vem de um lugar, do que se esconde?
Não vim para tais devaneios
 
Mulher campinense de glúteos poucos
Me ignora completamente, sou desconhecido
Se não acredita, não estou sendo sentido
E não me classifica como aos loucos
 

Mulher campinense, toda diferente
Daquilo que poderia ser atraente
Para um mineiro doente de passagem
 
Mulher campineira deselegante
Talvez quisesse parecer interessante
Sou uma nuvem, pareço uma miragem

Porta do Adeus


Como recordarei de ti, Campinas
Se meus gestos senis me impediram
Se meus olhos cansados não viram
Todo o encanto das tuas esquinas?
 
Eu aqui na Júlio de Mesquita
Vendo-te despertar para a vida
Meu peito dói, é uma dor renhida
Nada que a contemplação suscita
 
Pessoas indiferentes passam, frenéticas
Vejo o pulsar de tuas veias, elétricas
Não vejo saudades que eu possa levar
 
E o caos da minha vida se avolumando
A energia do meu corpo desmoronando
Longe de ti, Campinas, quero estar

Por acaso

Campinas me assusta, bela cidade
De avenidas largas e becos estreitos
Corredores vicinais, todos perfeitos
Palco de recente e trágica realidade
 
Os campinenses te odeiam, te amam
Como eu poderia te amar, se me dói
N¿o somente esta doença que me corrói
Mas por minhas entranhas que clamam?
 
Pareço morrer quando aporto em ti
E estou sofrendo esta dor bem aqui
Nem mesmo tu poderias diagnosticar
 
Campinas, cidade minha por acaso
Poderias estender o meu prazo
E matar-me depois? Quero ainda amar!

Destino

Por que me tolhes, destino sagaz
De respirar normalmente meu ar sem dor
De acertar simplesmente, viver o amor
Sem a tal angústia que você me traz?
 
Por que me prendes neste quarto de hotel
Se a vida fora de mim parece tão doce
Pessoas vivem intensamente como se fosse
Tão delicioso viver, um pedaço do céu?
 
Por que me procuras, morte sombria
Despejando sobre mim esperança tardia
De então viajar sendo o que eu sou?
 
Por que me deixas, vida insolente
Me transformas, sou algo, não gente
Tão ignorante, pra onde eu vou?

Ar Campinense

Tenho os movimentos lassos, incertos
De um bêbado que enfim reconheceu
Quem é, o que fez, o que perdeu
Tantas verdades guardou e prazeres certos
 
Minha bebida é o ar de Campinas
Que nesta manhã despertou calada
Ignorando-me totalmente, não sou nada
O que és, cidade, que não me ensinas?
 
Sorvo em goles curtos a água destilada
Com sabor de maçã nada gelada
Com isso eu conto para me levantar
 
Mas por que me prostras ante tua grandeza
Se nem consigo apreciar tua beleza
Que escondes, como se quisesses me matar?

Don't love me

Dont take me anymore, darling
If you forgot I alive
Can I live so if I dive
Anytime, anywhere in anything
 
Don't remember me, honnie
When I am sad and dying
And my heart is always crying
If my sun is not so sunny
 
Don't love me, little one
I'm the worst man God has done
And my kisses brought you death
 
Leave me alone, my baby child
I have my own destiny to be wild
It shall never change neither the faith

Canto para um homem forte

Meu pai,
Que de coragem e bravura fez sua história
Em sua terra desconhecida
Hostil e inglória
Onde com o teu suor de menino
Ganhaste a gleba que te hل de cobrir
Sou com tu, pai

Meu pai,
Que começo a perder na distância
Homem bonito que sempre se estimou assim
Impondo o respeito com teu jeito manso
Espalhando o medo com tuas maneiras duras
Sou como tu, pai

Meu pai,
Cujo coração abriga amores
Poesias e cantigas que jamais morrerمão
Cujos segredos continuarمo insondلveis
Cuja alma permanecerل boa como sempre
Sou como tu, pai

Meu pai,
Lembro-me de como me soltaste no mundo
Impْbere garoto com um longo destino
Choraste a minha ausência quando viste
Que apesar de tudo eu era teu filho
Me amavas entمo, mas de mim abriste mمo
Sou como tu, pai

Meu pai,
Cujo sangue espanhol fervilha
Em maneiras ora rudes ora delicadas
Incapaz de odiar teus raros inimigos
Apro para amar teus numerosos amigos
Sou como tu, pai

Meu pai,
Teimoso com as tuas dores internas
Mestre em esconder teus sentimentos
Sensيvel ن beleza, amante da natureza
Homem intrépido, sempre comedido
Sou como tu, pai

Meu pai,
Meu grande herَi polivalente
Cuja cultura nمo se aprende em livros
Cuja lisura nمo estل nos compêndios
Pai, mineiro discreto e calado
Sou como tu, pai

Meu pai,
Cujas mمos grandes e carinhosas
Cujo nariz enorme sempre atento
Pai, de proporçُes sempre mلximas
Fizeste tua gente delirar por ti
Sou como tu, pai

Meu pai,
Nمo me deixes agora, ainda é cedo
Ainda nمo pudemos ser confidentes
Pois guardas teus segredos como eu
Que guardo meus segredos, como tu
Sou como tu, pai.

30 Minutos

 
Meu corpo agora dolorido
Pela noite insone que passei
Ou pelas atitudes que tomei
Me debilitam nesse peso sofrido
 
Faltam trinta minutos para a viagem
Estou zonzo, o mundo girando
Sou impelido, agora me assustando
Temo nمo apreciar a paisagem
 
Mas que paisagem que poderei ver
Se a dor interna insiste em doer
Nem faço idéia de como parar
 
Entمo espero que chegue o carro
Minha pequena afliçمo eu narro
Esperando poder um dia voltar.
 

2006-03-29

Viagem

 
Tenho os movimentos lassos, incertos
De um bêbado que enfim reconheceu
Quem é, o que fez, o que perdeu
Tantas verdades guardou e prazeres certos
 
Minha bebida é o ar de Campinas
Que nesta manhã despertou calada
Ignorando-me totalmente, não sou nada
O que és, cidade, que não me ensinas?
 
Sorvo em goles curtos a água destilada
Com sabor de maçã, nada gelada
Com isso eu conto para me levantar
 
Mas por que me prostras ante tua grandeza
Se nem consigo apreciar tua beleza
Que escondes, como se quisesses me matar?
 

2006-03-28

Corre nas veias

Corre nas minhas veias
A essência do teu mundo
Que vejo através da vidraça
Delicada do teu corpo moreno
Sinto o cheiro adocicado
De tuas coxas qye me tomam
Num abraço definitivo
Para nunca mais esquecer
Beijo o teu seio sedoso
E na carícia que me sufoca
Sou muito mais do que sou
És mais do que eu merecia
Sorvo em pequenos goles
As delícias da tua boca
Que se abre morna e feliz
Para então novamente se fechar
Então me deixo quedar
No gozo pleno de ser teu
Em afagos me desfazendo
Enquanto o paraíso é aqui
Como eu te amo, menina
Ainda que somente eu veja
Tua sombra na minha sala
Para sempre me lembrarei de ti

2006-02-18

Ainda Nao

 
Ainda que quiseste afogar a minha voz no limbo do esquecimento, tornando-me mera reminiscência no universo das loucuras e paixões, eu sobrevivi em meio a esse caos imortal. Não foi meu mérito, a bem da verdade, e nada eu fiz sozinho, além de remar com palavras conhecidas no marasmo da incompreensão, a tortura da minha angústia recrudesceu, tornando-me seu paladino e bandido.
Quem me levantou pela mão foi um tipo de anjo de Deus, com longas madeixas morenas estendendo seu charme sobre esse moribundo coração e, embora residente em longínquas plagas, realizou o milagre de me tornar mais perto e mais íntimo, a ponto de confundir seus sonhos com os meus, seus desejos caminhando junto aos meus, para numa dimentão especial, num tempo abreviado pela urgência, estaremos assim, misturando nossa essência.
Quem desejará me procurar depois desse tempo em que tombei ante os muitos achaques gulliverianos? Não me encontrará, pois encontrei meu caminho, e ele me leva a terras distantes.
Nessas terras frias onde o amor acontece sob edredons pesados, ora em praças apinhadas de história onde o sol brilha intensamente anunciando novos horizontes, ali está a minha vida, incerta e desejada, planejada e estranha, mas com uma dose extrema de esperança.
E você, que me acena à distância, pode ter meu sangue ou não, pode ter recebido de mim a atenção parca de que eu dispunha, pode ter me criticado com o desprendimento dos críticos que, eles e somente eles, entendem a minha amargura. Que agora eu mantenho submersa no oceano da paixão que dura para sempre.
 
 
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2006-02-11

Universe of Mine

 
My universe has grown to sky
For me, I thought I was died
But I understood: she is my wife
In a big hope became my life
Through in a future that I do
Living this in the present, too
And the stars shines on me
Like the only one I used to see
And now my steps is toward
The one I love, the old coward
I ever forget, my ghosts have gone
If I get to be happy, it's done
Spread the wings, my dream
And appreciate my best scene
I'm just a silly man, falling in love
No matter what there is a curve
I must to cross to take the skin
The woman I love, she have seen
 
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2006-02-05

Ole !!!!

 
Naquela tarde eu saía mais cedo da escola. Minha última aula de Língua Inglesa foi às 15:00h. Meus alunos estavam sonolentos, pois o calor era insuportável. Quando soou o sinal do fim da aula, foi um alívio para todos, inclusive para mim. Cansado, deprimido, meu estado era o normal de um homem que foi desprezado por uma mulher, e pensando nisso eu caminhava sob o sol escaldante. Deixara o carro em casa, pois morava bem perto dali.
Devo ter passado por alguém conhecido, mas estava tão absorto nos meus pensamentos e tão entregue aos meus fantasmas que não devo ter cumprimentado ninguém. Aliás, eu não via nada à minha frente, parecia flutuar em uma dimensão diferente do restante do mundo. Mas vi quando um caminhão passou por mim, descendo a rua.
Transportava gado. Era uma cena comum na cidade, visto que a economia básica ali era justamente a pecuária. Ser professor não me rendia nada comparado ao que eu teria se fosse pecuarista naquele lugar quente e pasmacento.
O caminhão passou por mim, e andava devagar. Notei, porém, um detalhe aterrador. Além das poucas reses havia madeira no caminhão. Claro que uma coisa não combinava com a outra. Somente um louco faria algo assim. E, para o meu espanto, a porteirinha traseira do caminhão se abriu quando o mesmo passou num buraco na pista e a madeira derrapou em direção às patas das vacas. Duas delas saltaram, desajeitadas, e correram em minha direção.
Fiquei estarrecido. Normalmente não tenho medo de vacas, mas aquelas ali estavam assustadas, e seriam capazes de tudo. Olhei em volta, não havia onde me abrigar. Atrás de mim havia um poste de luz, foi onde me refugiei, o mais rápido que pude. Uma das vacas estacou, confusa, e desceu a rua. A outra continuou subindo, firme, e passou por mim bufando e apavorada.
Suspirei de alívio, protegido pelo poste, e olhei para onde a vaca se dirigia. Foi então que eu vi.
A poucos passos de mim vinha uma moça alta, morena, bonita, elegante e perigosamente distraída. Não viu o movimento da rua, nem a vaca que ia em sua direção. Quando gritei, já era tarde demais. A novilha (esclareço que era uma novilha, não uma vaca, que me perdoem os leitores) atingiu a moça em cheio, no estômago, e continuou sua desabalada carreira.
Sem pensar direito, corri para a moça, que tombava para trás, desmaiada. Consegui segurá-la nos braços, antes que caísse no chão. Olhei, não havia sinal de lesões. Por sorte a novilha era mocha (pra quem não sabe, sem chifres).
A moça (não a mocha) desmaiada nos meus braços, começava a pesar. Ainda tive tempo de observá-la. Era realmente muito bonita, os lábios bem desenhados, os cabelos caindo como cascatas negras, a pele bem cuidada, um perfume estonteante. Tomei-a nos braços. Não havia mais ninguém na rua. Procurei um lugar para abrigá-la, todas as portas fechadas. A primeira casa que vi, gritei de fora. Ninguém me atendeu. Insisti (a moça já pesava em meus braços, apesar de sua delicadeza). A porta marrom da casa em questão se abriu lentamente, uma cabecinha enrolada num lenço assomou, assustada.
- Rápido, senhora, me dê abrigo. Esta moça sofreu um acidente ! - gritei
A dona, esbaforida, bateu a porta na minha cara, para logo depois abri-la de novo, desta vez acompanhada de uma menina de doze anos, ambas assustadas. Mas franquearam a casa pra mim e meu precioso fardo.
Entrei numa sala mal iluminada, àquela hora do dia. Demorou um pouco para que eu me acostumasse. Depositei minha carga na poltrona mais próxima. No sofá maior havia uma anciã deitada com dois gatos. Com um aceno de cabeça a dona da casa me instruiu a retirar dali a velha senhora, o que fiz prontamente. Carreguei-a nos braços e levei-a a um quartinho nos fundos, que me foi indicado. Expulsei os gatos e os pelos que deixaram (eram muitos) e ali acomodei a moça bonita e desmaiada.
Ajeito as almofadas, ainda impregnadas de pelos de gatos, mas não tenho escolha.
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2006-02-03

Cadeira Cabeluda

Todas as noites vem a rainha
Com seu andar cadenciado
Fazendo voltas na minha cabeça
Eu querendo que seja minha
Embora um tanto apressado
Antes que eu proprio enlouqueça

A cadeira cabeluda aguarda, fria
Que a carne macia a toque
Aquecendo-a como se fora eu
Isso me traz tamanha agonia
Pois eu cá, ouvindo meu rock
Um momento somente meu

Coberta a cadeira, vem a beleza
De cujo rosto me encanto
Fazendo-me tolo e criança
A ela me rendo, a realeza
E para meu proprio espanto
Sou a própria esperança


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2006-01-23

Amor

 
Para quem nao sabe o que é o amor
Este amigo imperdoável que de tão sincero
Incomoda, nos deixa perplexos, e eu quero
Senti-lo de todas as maneiras, como for
 
É respirar um ar diferente
Sentir que a vida continua
Deliciar-se com a expectação nua
De que existe algo bom lá na frente
 
É catalogar todas as emoções que sentimos
Compará-las, e isso é certo
Pois ainda que não esteja perto
Por este amor descemos e subimos
 
Mas mantemos a calma, afinal
Pois se desejamos todo o tesouro
Que pra nós reluz mais do que ouro
Entendemos que este seja o sinal
 
 
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Filha do Meio

 
Não somente és a filha do meio
Que eu trouxe ao mundo em anseio
De não ser perfeito como devia
Mas isso você não entendia
Era apenas uma linda criança
Meiga e frágil, doce esperança
Então eu a vi crescendo
Aos poucos me esquecendo
Gerando em seu coração rancor
Mas ora, isso nao substitui o amor
Com que eu a amo eternamente
Por ele quantas eu tolamente
Chorei meu solitário pranto
Para não perder seu encanto
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Caçula

 
Não me queixo de você pois sei
Que você é fruto do que lhe dei
E se me relega ao silêncio doloroso
E seu conceito de um pai zeloso
Não corresponde em nada comigo
E mesmo que eu tente ser seu amigo
Encontro tão estranhas barreiras
São as suas peculiares maneiras
De ver as coisas, mesmo que não
Sejam de dentro do seu coração
Não me permito esquecer de você
Minha filha querida agora a crescer
Tornando-se uma encantadora mulher
Sou seu pai, se isso é o que voce quer
 
 
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Tormento

 
Vem meu filho, ausentar-se de mim
Quando meu prazer se tornou em tormento
Se por apenas um momento
Voce não pode ser como eu, assim
E tendo desprezado quem te amou
Abraçando a sua causa pessoal
Nem imagina tão grande mal
Que no meu coração você causou
Mas eu não tenho direito de odiá-lo
E continuo amando-o sem razão
Apesar de tudo o que eu falo
Você é o filho do meu coração
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2006-01-21

Circus - Zero Por Cento

Peça Teatral em Cinco Atos
 
 Personagens :
  1. Araujo - um cara ja sem paciencia
  • Funcao : gerente adiministrativo e financeiro, na carteira
  • Na prática : testa de ferro, laranja, bombril, resolvedor de pepinos, descascador de abacaxis, ouvinte de baboseiras
  1. Antonio - primo do dono, filho de casal de primos, louco de jogar pedra.
  • Função : projetista/orçamentista
  • Na prática : puxa-saco, pitaqueiro, intrometido, primo, doido

Ato 1:
Antonio chega, revirando os olhos, na sala de Araujo e já vai falando, sem ser autorizado:
- Araujo, você é o máximo. Adoro você. Gerente igual você tá pra surgir. Sua competência me assusta. Deixa eu te falar : tou fechando uma proposta de fornecimento pra Bolívia e quero saber de você qual a carga tributária da proposta.
- Tá
- Quando você vai me informar ?
- Agora. Alíquota ZERO pra tudo.
- Só isso, nao tem mais nada ?
- Zero.
- Tá bom

Ato 2 :
Tres dias depois, Araujo reenvia para o Antonio um email do Departamento Contábil confirmando a informação sobre o ZERO PORCENTO de imposto em que se diz:

"Caro Araujo,
           Conforme nossos entendimentos, confirmo a informação sobre a tributação das vendas efetuadas para a Bolivia. Aliquota ZERO. Favor verificar possibilidade de contratar consultoria especializada em exportação.
           Abraços,

           Marcos
 "

Ato 3 :
Antonio recebe o email e devolve ao Araujo dizendo :
- Se a alíquota é ZERO, qual o índice que vou informar na minha proposta ?
Não há resposta do Araujo, por motivos óbvios


Ato 4 :
30 dias depois, véspera de férias, Araujo está reunido com a área financeira e compras. Antonio chega, com o olhar vidrado e solta sem mais nem menos:
- Araujo, sobre a tributação de vendas pra Bolívia, você falou que é ZERO?
- Falei
- Então, como vou dar desconto na proposta se a aliquota é ZERO?
- Simples. Não dê desconto. Informe somente o valor real.
- Mas não posso, tenho que ter dois valores, com e sem impostos
- Negocie de outra forma, SOMENTE COM O VALOR NORMAL
- Quanto que vou aplicar ?
- Aplicar o que ?
- Imposto, uai
- Zero, Antonio, ZE-ZE-RO-RO
- Voce nao ta me entendendo
- Vc tambem nao
- Ta bom

Ato 5
Antonio sai da sala do financeiro e vai pra sua propria mesa. De lá, liga pro dono da firma, em curso em São Paulo:
- Ze Carlos, sabe aquela proposta da Bolívia ? Pois é, tenho que informar ao cliente os impostos que incidem sobre a venda e  O ARAUJO NÃO SABE. Nao, o CONTADOR TAMBEM NAO SABE.

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Sabado 21

Delicioso é pensar em como vivemos, quando mesmo sabemos o que vamos ver, vamos ter. O mundo girando em torno de si, em torno do sol, e nas voltas do destino, nosso destino vai sendo traçado. Será o Oráculo de Deus a instruir todas as coisas? Será um Noé contemporâneo construindo uma nova arca em que duas pessoas escapam do nonsense, das rotulações, do corriqueiro, do perfeitamente normal, se amamos ou se apenas somos amados, ou se amamos e não somos amados. Cada passo que se dá é um desafio, excitante e desconhecido como tem que ser, e nossas mentes se preparam, se formam, se armam para a grande batalha, o dia-a-dia em que aprendemos a ser nós mesmos, ainda que com as limitações pertinentes à nossa natureza.
Nossas vidas ora se dividem, ora são coesas e egoístas, mas sempre serão o nosso objetivo principal. Enquanto uns de nós, escrevendo nas páginas da história a história de suas vidas, outros simplesmente vivem sem pensar muito, cada um com seu percentual de erros e acertos.
Nisso está a grande sabedoria humana, de cada um ser quem quer ser.
Não falamos especificamente de quem quer que seja, mas falamos de nós mesmos, e a experiência metafísica nos ensinou que nada sabemos, e hoje ainda estamos na escola.
 
 
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2006-01-18

Inspiration

My eyes are droping a kind of tears
I can say nothing to kill the missing
You left to me tonight, along the time
I see you, but you don't hear me
I touch you, but you don't smell me
I love you, and I think you love me too
 
How many days I'll be stopped in this cave
Working to get the ticket
To ride toward your tanned arms
My heart is away, have you seen it?
 
Some words can be displayed meanwhile
I dream
But when I awake every morning
The flavor of your kiss is envolving me
In my bed there's someone
And the name of her is Loneliness
 
In a short piece of life, the time
Will surrender, and your head will be
Over my shoulders, listening to the music
The night plays for us
 
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O Resgate de Giselda - Parte 2

 
Giselda ligou pro Corpo de Bombeiros de Londres.
- Hi, people. It's me, Giselda, from Brazil. I am locked in my house. Please, help-me !
- Ok, Miss Gizele. We are going out. Don't move. We'll rescue you, soon.
- Thank you.
Por coincidência, dessas que acontecem em filmes, o sargento que recebeu o chamado é um fã incondicional de uma certa Gisele brasileira. Ligou os fatos : Gisele + Brazil = oba !!!. Berrou então ao seu destacamento, em inglês, obviamente :
- Temos um resgate a fazer neste momento, trata-se de uma brasileira. Deixem comigo que assumo pessoalmente o caso.
Enquanto isso, no Brasil, o namorado da Giselda entrara em contato com o Itamarati, que imediatamente acionou o consulado britânico no Brasil e o chanceler brasileiro em Londres. Num esforço conjunto inédito desde o atentado que vitimou um inocente no metrô londrino, os dois paises mobilizaram a policia federal britânica e, a pedido da rainha.
Sendo assim, dois dos melhores agentes da Scotland Yard foram designados para acompanhar o caso, com relatórios a cada quarto de hora, com cópia para o palácio de Buckingham.
 
Algum tempo depois, o sargento Jack, do corpo de bombeiros, irrompeu com seu destacamento na rua calma onde morava Giselda. Toda a vizinhança, se é que ficou alguém em casa naquela manhã, acorreu para verificar, bem à maneira inglesa, discretamente sem perder a pose.
O helicóptero da polícia despejou seus homens através de escadas flexiveis. Estes logo se posicionam estrategicamente. A Scotland Yard, com seus impecáveis agentes, trata de abordar o sargento Jack, que se mostra surpreso com tanta repercussão do caso. Caças começaram a sobrevoar o bairro, mantendo os olhos fixos no quarteirão onde se dera o fato.
 
A imprensa inglesa (leia-se tabloides sensacionalistas) logo acorreu, ávida de notícias. O julgamento de Saddam Hussei foi esquecido, o casamento de Elton John sequer foi mencionado, o frustrado sequestro do caçula de Tony Blair mereceu duas linhas, mas as unidades partiram pro local do evento, transmitindo ao vivo a operação de salvamento de Giselda. A BBC noticiou em edição extraordinária:
- Brazilian Gisele locked at house !
 
Nossa Giselda, sem saber do que despertara seu pequeno incidente doméstico, continuava procurando a chave em todos os lugares possíveis, e até nos impossíveis. Repassara centenas de vezes todos os acontecimentos da noite anterior, quando chegara do trabalho. Lembrava minuciosamente do que falara, com quem, em que momento. Se acreditasse em terapia da regressão estaria bem perto de ter feito uma regressão ao dia anterior, mas nada disso lhe valera encontrar a bendita chave. Já pensava seriamente em colocar uma cópia da mesma embaixo do capacho na porta, para o caso de esquecer ao chegar, mas ainda não pensara no que fazer numa situação como a atual. No açucareiro ? Não, todos na casa usavam adoçante. No armário do banheiro? Decididamente banheiro não era lugar de chave alguma. Por fim, exausta
 
Na verdade, é bom que se esclareça, todos os ingleses envolvidos estavam certos de que se travava de Gisele, aquela brasileira modelo que tinha pouco da nossa Giselda, esta sim, um ícone da beleza trigueira, cujos cabelos descendo em cascatas rebeldes e pousando suavemente sobre os ombros morenos. As duas tinham como único ponto em comum a nacionalidade.
 
Isto explicado, voltemos ao caso, antes que este narrador perca o fio da meada.
Em poucos instantes, os homens da operação salvamento estavam em toda parte. Os quarteirões foram fechados. Ninguém entrava ou saía sem ordens de Blair, o primeiro-ministro, não o chefe de polícia.
 
O sargento Jack, aquele do corpo de bombeiros, estava neste momento às turras com os dois agentes federais, cada um requisitando para si a jurisdição do caso.
- Trata-se de um incidente internacional - falava o Agente Bond, James Bond, muito nervoso, estranho para um inglês.
- Nada disso, meu chapa. Incidente local, habitante da cidade em apuros.
 
 
 
 
 
 
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2006-01-17

Crepusculo

 
É noite
Na vidraça turva a neve bate sem parar
São como gotas de algodão me assustando
Mais uma vez o céu cinzento se cobre de grossas nuvens negras.
Não faz sentido
Nada faz sentido
Estou assentado no chão, na sala
Ao meu lado o telefone destruído
pegadas de sangue em direção à cozinha
A música da rua vem romper a monotonia da nevasca
Não sei o que me atingiu
Não consigo ver nada direito
Meu corpo agora mergulha lentamente num torpor
Como se eu tivesse tomado algumas taças de vinho
Não há como chamar ninguém
Ninguém me ouvirá
As sombras me envolvem, mas não são as noturnas, pois ainda é dia
Tento mexer meus pés, nao consigo. Pesam toneladas
Uma sonolência incontrolável me assalta
Lembro de tudo o que passei na vida
Muita coisa valeu a pena
Outras coisas nao
Nao consigo mais pensar
Meus olhos se fechando
Vou perdendo a noção de profundidade
Não sou eu mais aqui
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2006-01-16

Prosaicus

 
Estava eu pensando, e pensando eu entendi que pra entender eu não precisava pensar. Não posso mudar as coisas como nasceram, não posso deixar de ser eu, o visionário imberbe que se aventura pelos recônditos mal-falados das paixões.
Para onde vou neste momento? Se eu soubesse dizer, na certa traçaria planos mirabolantes, estrategicamente perfeitos, e não vacilaria em palmilhar cada um dos caminhos diante de mim, como se fossem cabalmente verdadeiros.
Mas não. Minha vida está associada ao que é a minha emoção, e eu alimento esse egoísmo todos os dias.
Quem me amará nesses dias?. Decerto que sei a resposta.
Mas as respostas definitivas, que Deus escreveu para mim, oráculo de mim mesmo, vem a cada instante enrugando a minha pele no toque áspeo da realidade que eu vivo. Mas é também o sopro gélido nesse calor tropical de minha alma.
Tenho algumas palavras a dizer.
Mas as palavras são tão numerosas que acabarão em nonsense. Terei dito intermináveis monólogos sem no entanto definir o meu papel aqui nesta terra, onde a minha semente foi e ainda será lançada, gerando seres infinitamente parecidos comigo, tolos e fáceis.
Mas não sou tão fácil assim, me dirão alguns. A paixão que retorce o meu peito acontece uma vez só, e se apaga se ferida, então me atira ao limbo onde permaneço para sempre até ser resgatado.
Presentemente eu vivo, e isso é permanente. Vivo na memória daqueles  que por uma razão ou outra não parametrizaram a minha passagem com os nefastos vilões da história. Vivo na mibha concepção particular de que sou tão factível de ser feliz quanto qualquer outro, não importa qual bizarro seja o caminho que eu percorrer para isso, desde que eu mesmo não o considere bizarro.
Sinto um leve torpor que me inebria, trazendo-me o cheiro ocre londrino, saído de uma história antiga. Estou passeando pelas ruas sombrias, mas meu coração foi aclareado pelo despertar de um novo milênio, não aquele que rege todos os seres, mas a minha própria época.
Sou eu escrevendo as páginas do meu romance, em que sou protagonista, mas um perfeito coadjuvante, pois nada farei se ficar sozinho. Não garanto que saiam perfeitas, mas garanto a genuidade, a veracidade, a honestidade de minha vida.
Interessa a certas pessoas. A outras não. Não importa.
 
 
 
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2006-01-08

Princesas Julie e Emmy e a Goiabeira Real

Num reino muito distante chamado Mallaka, o Rei Charles partiu pra guerra. Precisava conquistar novos domínios, estabelecer riquezas e, mesmo que pesaroso de deixar a família real, seguiu o seu caminho. Ficaram as princesas Emmy e Julie com a rainha. Como toda criança daquele reino, tinham suas tarefas a cumprir, iam à escola, ajudavam à mamãe com os cuidados do palácio mas, quando tinham uma folga, corriam para a Goiabeira Real, o seu lugar preferido. Esta goiabeira real, contavam as lendas, tinha sido uma princesa lindíssima há muitos anos mas, por sua infelicidade, uma bruxa má, vinda do oriente, a transformara em uma goiabeira, tomando-lhe assim o objeto de seu amor.. Numa época em que as invejas e porfias eram uma praga naquele mundo, a inocência e a pureza das princesas Emmy e Julie sobrepujavam todo o mal que poderia existir na natureza humana. As princesas eram as melhores na escola aprendiam coisas novas, conheciam pessoas interessantes, se enchiam de ricos conhecimentos, mas guardavam no seu coração, com um grande tesouro, a imagem seu querido papai. Nos intervalos das batalhas, porém, o rei Charles as visitava, percorrendo com sua carruagem real e comitiva, uma grande distância . Ele sempre levava presentes para as suas princesas, mais o que mais as agradava era simplesmente a presença do rei. As princesas costumavam brincar no jardim no palácio e ali a Goiabeira Real, frondosa, majestosa, as acolhia com ternura e amor, protegendo-as e instruindo-as. Por muitos anos aquela árvore tinha visto reis, príncipes, princesas e rainhas, vitórias, conquistas e dores. Por iisso acumulava tanta sabedoria que podia ser considerada oráculo. Mas, por um capricho do destino, somente as princesas e suas amigas sa desfrutavam de tanta sabedoria daquela árvore milenar. Nas tardes reais as princesas brincavam ao redor da goiabeira, comiam de seus frutos vermelhos e suculentos, inventavam jogos e algazarras, até que chegasse a hora de voltarem ao palácio para fazerem os deveres de casa e dormirem.. Certo dia, as princesas Emmy e Julie foram surpreendidas quando chegaram ao seu lugar preferido. A goabeira jazia tombada no chão, morta. As princesas logo o chamaram a rainha, e esta determinou que os cientistas e agrônomos do Reino examinassem a árvore tombada. Começaram as lendas no reino. Teria sido um ataque alienígena? Algum animal da floresta encantada? Algum vilão misterioso? A bruxa malvada ? Os duendes maus ? Os monstros que atacavam criancinhas que nao gostavam de leite e verduras ? Mas, após exaustivos, porém minuciosos estudos, sábios e magos reais constataram que a Goiabeira Real havia morrido de velhice. Isto consternou profundamente as princesas. Como elas agora iriam se divertir?. A quem contariam os lúdicos segredos de sua infância, quem lhe ensinaria os profundos segredos do universo?. Quem lhes abriria as excitantes aventuras de todos os séculos?. Foi decretado feriado para as cerimônias fúnebres da árvore real. Os corneteiros, vestidos a rigor com seus bonés vermelhos adornados com correntinhas douradas, os guardas palacianos, o cortejo seguia pelas ruas douradas do palácio.

2006-01-05

O que sustenta o mundo

Mesmo com a visão embotada pelo cansaço da hora, os músculos lassos, uma parte de mim retesada e viva, o alvorecer bem perto, a chuva passou. Na minha vidraça a solidão não bate mais, assustando-me como se eu fora o último dos moradores da terra. Entao vejo aquilo que é meu interesse, e os meus sentidos se aguçam. Em taças homônimas, lutam para se libertarem, para serem vistos, tocados e sentidos. Mas são retidos, apertados, oprimidos, censurados, distanciados. Sou o seu libertador, mas nao os alcanço, pois meus braços são curtos e minha vontade crescente. Entre frustrado e infeliz, sou feliz , no entanto. Sem querer explicar nada, apenas viver esse momento sublime de êxtase. E logo adormecer. Sozinho. Como sempre.

Almoço com a sogra

Ele, de bermuda e camiseta, já meio calvo, com a esposa a tiracolo, caminha impavidamente pelo restaurante e sussurra algo ao garçom, um gigante de dois metros de altura. O garçom passeia o olhar em volta, experiente. Olha o casal, olha as crianças, e por fim, a sogra. Sugere, então, em voz baixa e polida, que se juntem três mesas bem no meio do salão. Incontinenti, faz a mudança necessária e fica, por um instante, paralisado, observando como a família vai se acomodar. O casal fica no canto, em frente ao espelho, e de frente pro resto do Shopping. Ao seu lado, afastado umas duas cadeiras, está o filho mais velho. Nós o chamaremos de Rafael, pois todo adolescente de 15 anos se chama, indefectivelmente, Rafael.
Do outro lado da tira de mesas, em frente aos pais e, portanto, no canto, diante do espelho e de costas para o shopping, está o caçula, que por ter uns 10 anos, deve se chamar Felipe.
No canto oposto, no mesmo lado em está Felipe, está a sogra.


------------ to be continued -------------------

2006-01-02

Adoradores



Acordo sobressaltado, sentindo uma certa pestilência no ar. Resultado de um sonho mau. O telefone toca, uma voz automática me chama pelo nome completo e me sugere que eu preste atenção no que vou ouvir. Mas não é do próprio aparelho, é um carro de som, convocando a população masculina para se alistar nas fileiras das forças armadas. Estranho é que o convite é feito com uma exigência de se pagar certa quantia pela inscrição. Alistamento militar gratuito já é uma hipocrisia, pago então....
Por uma estranha contingência, apenas os homens conseguem ouvir a mensagem. Pelo que observo, não houve aquiescência de ninguém até este momomento. Cada um com sua guerra particular.
Pensando nisso, sinto ainda o peito oprimido, como se pressentisse que alguma coisa estava fora de controle. E a minha mente repassou em revista todos os meus amigos, poucos em número, porém grandiosos em qualidade.
Meu coração me ordena que eu visite um deles, Marcone. Um comerciante normal, com a vida ajustada, pregador de uma igreja neoliberal pós-moderna, seja lá o que isso significa. Conheci-o na dita igreja, onde fui mitigar alguns dos meus numerosos pecados, até descobrir que dos meus pecados entendo eu e Deus.
Marcone havia se mudado para um sítio, onde vivia sozinho, compondo canções gospel, vivendo a vida como imaginava que poderia ser uma vida saudável e feliz.
Algumas vezes eu o visitava, e a sua sabedoria ilimitada me deslumbrava. Sua esposa se desdobrava em mimos para comigo, preparando suculentos pratos que sabia ser da minha preferência.
O licor de jabuticaba era sua especialidade. Doce, encorpado e translúido, era um prazer saborear, à sombra das mangueiras, todo aquele esplendor.
No sítio de Marcone havia um pequeno pomar, totalmente eclético, onde se podia encontrar desde o exótico caqui até o nauseante pequi, só pra rimar.
O caminho até o sitio era orlado por belíssimas árvores.A alameda de ipês (que eu mesmo ajudei a plantar), dava a impressão de estar indo em direção ao nirvana. Não posso me esquecer dele, pois lutou ao meu lado numa guerra sem qualquer tipo de senso moral ou patriótico, como eu mesmo não seria capaz. Sigo o impulso de visitá-lo. É uma caminhada prazerosa, o perfume das flores do campo desintoxicando os meu pulmões. Não sei porque, mas me sinto totalmente revigorado. Nem me lembro da loucura da noite anterior, quando foi a comemoração de ano novo, as pessoas se embebedando cuidadosamente irresponsáveis, aproveitando o dia para serem exatamente o que são. Não as reprovo. Cada um com suas particularidades, algumas até mesmo coletivas.
No caminho, numa bifurcação da alameda está a casa de Jennifer, uma moça bonita da cidade, professora formada, cuja dedicação às crianças a encheu de notoriedade e carinho por parte da população. Resolvi dar um alô, pois minhas relações com ela são muito boas, embora não sejamos mais amantes.
Encontro-a pendurada numa trave, o pescoço amarrado por um fio e isso me choca. Corro para ela e tento retirá-la daquela posição ridícula, mas me surpreendo com a sua reação.
- Não faça isso, Homer ! Afaste-se de mim!
- Não estou entendendo, Jennifer!
- Não se intrometa - falou, duramente - é um assunto meu.
- Você quer se matar? Ficou louca ?
- Contrário. Quero viver. Estou me purificando.
- Já sei, ficou até tarde vendo People&Arts, e agora quer imitar alguma coltura aborígene que pratica a autoflagelação.
- Que discurso cansativo. Quer fazer o favor de me deixar em paz ?
- Ok, você que sabe.
Saio dali apreensivo. Ela mora sozinha. Seu único vizinho é Marcone. Antes de deixá-la, porém, fico sabendo que ela se penitencia por ter cedido ao assedio de seu namorado, e também se amarrou, pelo pescoço, aquele travessão. Seu ritual de purificação é no mínimo macabro, mas ela fez questão de me manter fora dele. Ainda asim, argumento que não é exatamente essa a forma de chamar a atenção de Deus, mas ela está firme em seus propósitos. Alguma coisa deve ter acontecido. Ou ela bateu com a cabeça ou um asteróide caiu nos campos próximos, como num filme de ficção.
Ainda assim, não hesito em chamar a polícia. Ligo para o delegado Antunes, que não se encontra, foi a uma reunião na sede da Maçonaria. Deixo recado com o cabo Arnaldo e lhe peço que mande alguém atender a Jennifer. Alguma coisa no meu coração começa a tomar forma, e é uma angústia inexplicável.
Em alguns passos eu já estou no sítio do Marcone.
Marcone no seu sitio na estrada velha, amarrado a coluna de madeira por um fio de aço que lhe sai da orelha, magro e abatido, mas com um sorriso simplório nos lábios. Não parecia bem, no geral.
- Meu amigo, o que está acontecendo com você ? - pergunto
- Comigo? Nada além de experimentar o nirvana - responde, numa voz rouca.
- Quem fez isso com você ?
- Isso o que ?
- Quem o amarrou dessa maneira ? Há quanto tempo? Qual o motivo?
- Ninguém me amarrou. Eu mesmo o fiz, para me purificar.


--------- to be continued -----------------

2005-12-27

O Resgate de Giselda

Giselda é uma moça bonita, morena, inteligente e espirituosa. Mudou-se par Londres. Saiu de Belo Horizonte, ajuntando na mala todas as suas esperanças, seus medos, suas dificuldades e aptidões, deixando em stand-by as profissão de professora, que é pouco prestigiada neste país, e ganhou o mundo. No seu coração estava a sede de conquista, a possibilidade do ilimitado, a necessidade de se superar. Deixou uma família linda e maravilhosa que, apesar da saudade, a apoiou no seu projeto. -Ela sempre sonhou em ir pro exterior - confessa Dona Zilda, a mãe, entre saudosa e orgulhosa, uma baiana forte e simpática, como normalmente são as baianas. Com um franco sorriso e fartos cabelos encaracolados, Giselda foi distribuir simpatia em Londres, presenteando os carismáticos britânicos com o melhor da beleza trigueira deste nosso país continental. A pele morena era como uma placa em néon :”sou brasileira", mas o seu olhar firme e determinado era a própria obstinação. Como era de se esperar, o grande sorriso conquistou os sisudis ingleses e Giselda ficou lá. A saudade dos que a amam teve que ser revista. Ficou um tempo silenciosa, até se situar. Hoje, estabilizada e feliz, trabalhando, divertindo-se e magnanimamente se enchendo da cultura mundial concentrada nos nichos londrinos, ela se realiza. Com pouco tempo chegaram as fotos da Giselda posando na Trafalgar Square, diante do Parlamento, Big Ben, Távola Redonda, os lugares de sempre.... Londres ficou ofuscada pela sua presença marcante na cidade. Morando na região do cruzamento das Ruas Royal com Carlisle, bem perto da Westminister Bridge e às margens do Tamisa, todos os dias acorda bem cedo e vai ao trabalho, como realmente se espera de alguem com a sua disposição. Mas num dia qualquer de trabalho, às vésperas do fim do ano, em que nada poderia acontecer para quebrar a rotina de Giselda, ela acorda despreocupada. Como sempre, planeja seu dia, coisa que não é próprio das mulheres, elas que perdoem este humilde narrador. Vai trabalhar daqui a pouco. Vestida com um pijama com um cachorrinho amarelo estampado (o preferido dela), apesar do frio da cidade, faz sua oração matinal, pedindo a proteção de Deus, que a olha embevecido, o grande coração pingando de amor por ela. Caminha Giselda para o banho, como sempre faz. O ritual, como se sabe, é igual para todas as mulheres, conforme descrito minuciosamente num site, por um brilhante e desconhecido autor, que aqui transcrevemos:

  1. Tira a roupa no quarto e as separa delicadamente, sendo que algumas serão colocadas no cesto de roupa suja, segundo a tonalidade das cores.
  2. Coloca o robe e caminha calmamente até o banheiro. 
  3. Se no caminho encontrasse o namorado ou marido, cobrriria o corpo e sairia correndo para o banheiro. 
  4. No banheiro, fecha a porta, tira o robe e pára diante do espelho. 
  5. Analisa o corpo. Força a barriga para fora para poder se queixar que está mais gorda do que realmente está. 
  6. Tira todos os brincos, jóias, bijuterias e deixa organizadamente na pia. 
  7. Antes de entrar no box, organiza a toalha para o rosto, a toalha para os braços e pernas, a do cabelo, etc... 
  8. Abre o chuveiro e aguarda calmamente a água esquentar, espera o ponto ideal. 
  9. Lava o cabelo com shampoo de abacate/mel com 83 vitaminas. 
  10. Repete o processo de lavar o cabelo com o shampoo de Camomila com 105 vitaminas. 
  11. Enche o cabelo com condicionador Próativo de babosa com mais de 100 proteínas e deixa por 15 minutos. 
  12. Lava o rosto com uma mistura de pêssego por 10 minutos ate que o rosto fique vermelho. 
  13. Lava o resto do corpo com sabão de nozes e morango para o corpo. 
  14. Tira o condicionador do cabelo. Este processo leva 10 minutos. 
  15. Ela deve estar segura de que todo o condicionador foi retirado. 
  16. Depilação de axilas, pernas e a área do biquíni. 
  17. Fecha o chuveiro. 
  18. Escorre toda a água dentro do box. 
  19. Sai do box e se seca com todas as toalhas já mencionadas. (uma delas é do tamanho da África) 
  20. Coloca uma toalha super absorvente na cabeça. 
  21. Revisa mais uma vez o corpo em busca dos detalhes. 
  22. Passa creme para o rosto, para a barriga, loção para o corpo, perfume, loção, creme para os pés, cotovelos, bumbum, mãos, desodorante, etc, etc, etc. 
  23. Coloca algumas das jóias/bijouterias e pega as outras. •
  24. Já morrendo de frio, coloca o robe e retorna ao quarto.
  25. Se encontrasse o namorado/marido pelo caminho, se cobriria mais ainda e sairia correndo para o quarto.
  26. 1:30 horas depois está vestida.

Desta vez acontece o inusitado. Enquanto ela tomava se banho rápido de uma hora e meia, todos os outros moradores da casa saíram, como era de se esperar em uma casa em que, os que não trabalham de fato, tem a escola como se compromisso diário. E a nossa Giselda não se dá conta de que está sozinha e trancada dentro de casa antes que isto seja terrivelmente evidente. Primeiro precisou tomar o seu breakfast de pão de queijo com goiabada, só pra não quebrar a tradição mineira. Feita a terrível constatação, começa então a busca de uma solução. Primeiro volta ao quarto onde dorme e revira as gavetas. Revirar é uma forma de dizer: Separa metodicamente todo o que encontra lá, conferindo peça por peça, tentando em vão encontrar a chave. Confere as 65 bolsas, e em qualquer delas encontra o que procura. Olha embaixo da cama, no peitoril da janela, nas ranhuras do aquecedor, um modelo vitoriano e eficiente. Senta-se na cama e tenta reviver os seus últimos instantes com a chave, na noite anterior. Foi a mesma noite em que placidamente dormiu no ônibus, confiante que no ponto final acordaria, o que não aconteceu, obrigando o condutor a fazer macaquices para acordá-la. Não se lembra de nada desde então. Vamos ver. Chegou, tomou um banho daqueles, fez um chá inglês e.... eureka! Está na cozinha, pensa, animada. E, na cozinha, depois de revirar os armários, conferir a chaleira (nem tão vitoriana assim), chega à conclusão que não está ali a bendita chave. O tempo passando. Atrasada no emprego, o que é uma temeridade em Londres, como é em qualquer lugar do mundo. Volta à sala, retira as almofadas do sofá e se acomoda nele, tentando recapitular o momento em que ali se assentou para ver televisão. Nesse instante sente algo tilintando ao alcance de sua mão, e abre um sorriso largo de satisfação. É uma chave. Apalpa-a, confere. Decepção, não é A CHAVE. Pensa em chamar os bombeiros, mas ainda há tempo antes de se desesperar. Confere cada cômodo e cada canto, nada. Neste momento já se encontra suada e exausta. Pensa em tomar outro banho, mas desiste, pois no momento é prioridade encontrar o que procura. Resolve ligar para o homem da casa. Ele não se encontra. Não, não vai voltar agora. Sim, foi a um lugar distante, no outro lado da cidade. Telefona então para a dona da casa, que atende preocupada: - O que aconteceu, Gi ? - Vc nem vai acreditar, Lo. - Tente me contar então... - Estou em casa. - Uau, folga hoje? - Antes fosse, Lo. - Não me diga que foi demitida. - Também não é para tanto - Fala logo, ta me deixando preocupada - Estou presa em casa, não sei onde guardei a minha chave. - Não acredito. Você é tão certinha e organizada. O que houve? - Não sei mesmo. Como eu faço agora ? - Eu não posso ir até você – escusou-se a outra – tenho muito trabalho agora de manhã aqui na loja e não poderei me ausentar. Chame meu marido. - Ele está fora da cidade. - Menina, que enrascada! Ligue pra empresa e avise que vai chegar tarde, ou que nem vai. - Eu fiz isso, mas não me sinto à vontade. - Ora, Gi, ninguém se sente. Sugiro que fique em casa. - Não posso. Hoje tenho que liberar tudo o que acumulou de sexta-feira pra cá. - Vamos combinar então. Se eu conseguir um jeito aqui, te ligo e vou até aí com o hábeas corpus. - Obrigada, Lo. Você é ótima Giselda então refaz todo o seu caminho procurando o precioso objeto. Apela para o vizinho. Ele também não está em casa. Mesmo porque não é hora de ninguém estar em casa, somente Giselda. Lembra-se, no seu mudo desespero, da música de Raul Seixas: o dia em que a terra parou. Ninguém está onde deveria, naquela manhã. Começa a gritar pela janela. Passa um ancião, espairecendo, e sequer olha na direção dela. Na certa, sua mente está perigosamente mergulhada no passado, pensa ela. O garoto, provavelmente matando aulas àquela hora, caminha displicentemente diante de sua janela, sem lhe dar a mínima atenção. Começa a fazer mentalmente uma lista de quem poderia ser convocado para lhe dar a liberdade. Colegas de trabalho, polícia, bombeiros, Príncipe Charles. Ninguém teria a chave para lhe emprestar, portanto não adianta chamar qualquer um deles. A polícia? Prefere esperar mais. Pode ser que a polícia metropolitana chegue atirando pra depois lhe perguntar o que realmente aconteceu. Chama os bombeiros, por fim. Não são eles os heróis do calendário, os que socorrem necessitados, salvam gatinhos de árvores? Ela não é uma gatinha em apuros :? Pois então. Mas um fato estranho estava para acontecer. A sua ligação para os bombeiros, por uma anomalia instantânea de um satélite de comunicação, coisa que não tem explicação, foi . --------------- to be continued ----------------------------------------

2005-12-19

Fim de noite



O copo tombado no chão, o gelo derretido de uma farra solitária, os olhos ardendo diante da luz insuficiente da sala (quase escreveu bruxuleante, como gostaria, né ?), a toalha amarrada na cintura, ele pensava no que tinha acontecido. Era pra ser um dia calmo, na pasmaceira modorrenta de todo domingo, mas acordou com os trovões à sua janela, a chuva caindo pesada e constante.
Pestando mais atenção aos ruídos do dia ele pôde distinguir, sobressaltado, que gritos de terror ecoavam lá fora. Era uma guerra de nervos. Pessoas desesperadas sendo devoradas pelo horror da guerra. Foi então que percebeu que os trovôes não o eram simplesmente, mas eram os canhões que espoucavam (onde já se viu guerra com canhões? isso é coisa da idade média!), enquanto os caças despejavam seus mísseis sobre a cidade indefesa.
O prefeito havia sido raptado e o poder tinha sido substituído pelas forças inimigas. Um general calvo (sem preconceitos, por favor), berrava num megafone (cadê a internet?) se auto-intitulando governador da província (provìncia? por favor, me poupe, você bebeu o que?)
O quartel general das forças de ocupação (tem visto muito filme baixado em DIVX) tinha sido estabelecido no edifício JK (tinha que ser ele, tadinho, só pela má fama que sempre carregou injustamente, agora paga o pato). As crianças tinham sido agrupadas onde funcionava a polícia, no prédio (tá parecendo a história do Pink Floyd - The Wall. Só falta alguem cantar 'Leave those kids alone').
Olhou no fundo do copo (devia ser onde ele conseguia tanta informação). Sentiu que nao estava bem. Não ele, mas o copo. Vazio, definitivamente. Tinha acabado a última garrafa de Martini, que sobrara do ano anterior, de tanto que ele bebia. Era um Martini antigo, comprado na promoção do Champion, quando este existia. Nada se comparando às beberagens do Rio no último reveillon.
- Será que fiquei louco? - pensou (interessante como eu sei o pensamento dele)
- E quem não é? - consolou-se
Ligou a televisão, mas nao havia transmissão normal. Todos os canais transmitiam a imagem nefasta do general careca, que explicava que a cidade fora julgada e executada pelos seus numerosos pecados.

---- vou dar um tempo com a história ---- não estou entendendo mais nada e já passou de meia noite - o sono chegou. Amanhã a gente vê como termina isso.

2005-12-16

Um dia de fúria




Lembro-me de ter visto um filme há muito tempo (não vou dizer quanto pra ninguem especular minha idade, embora eu não esconda que sou um garoto), em que um pacato cidadão, indo para o seu trabalho, acabava se envolvendo em vários acontecimentos inusitados, tornando-se uma máquina de matar.
Não vou me inspirar no filme. Aliás, nem sei porque eu o citei aqui nesse post (antes era crônica, agora se chama post), mas um dia de fúria (era o nome do filme) não tinha final feliz.
Paralelamente, e invariavelmente, depois do desjejum diário (de que nem sempre eu me lembro) ando os quatro quarteirões que me separam do trabalho. Que me invejem os mortais, mas eu vou a pé para o trabalho e ainda almoço em casa!! Isso é Belo Horizonte !!!
Pois bem, chego primeiro, abro a firma e a primeira providência é fazer um backup do software de gerenciamento que eu mesmo criei. Não confio no backup automático do servidor. Esse software tem uma história. Eu o construí em pleno vôo, quando cheguei à empresa e encontrei registros financeiros e contábeis feitos a caneta em arcaicos livros pretos.
Minha função: gerente administrativo e financeiro. É um conceito vago a administração. Muito difícil de fazer as pessoas entenderem. Houve época em que me invejavam, pois o meu cargo tinha um certo nome, eu andava com um carro da empresa, etc., mas depois, quando passei a ganhar a metade do salário do meu funcionário mais idiota, ninguém mais se interessou em me destronar.
Normalmente, depois do backup, eu crio algum módulo adicional. Hoje mesmo criei um analisador de produtos vendidos, um calculador de ICMS a recolher, um transferidor de saldo bancário, além de uma série de outras coisinhas miúdas de quem nem me recordo.
Feito o backup (ainda estamos nele), a próxima meia hora fica por conta de me levantar e abrir o portão eletrônico (afinal a empresa é de eletrônica) para os funcionários. Dois deles chegam invariavelmente atrasados, mas um é primo do dono, e a outra é a preferida do dono, portanto, não posso mexer.
Pronto. Chegaram todos. São 9:00. O tal primo fala em voz alta sobre a novela da noite anterior. A minha sala é exclusiva, mas tenho que aturar esse papo furado sobre novela e, pior, futebol. É uma pessoa que apregoa que a necessidade básica de um homem é futebol. Sim, ele é doido.
Recebo uma ligação de São Paulo. Uma senhorita muito educada me ameaça com seu departamento jurídico porque eu ainda não registrei o nome comercial da empresa no INPI. Tem mais gente interessada.
O contador liga me pedindo instruções sobre como proceder com o ICMS, uma vez que está sendo ajustado de última hora.
Uma grande companhia mineradora me liga de São Luís, no Maranhão, me dizendo que existem peculiaridades nunca vistas antes para o pagamento de faturas emitidas contra a tal empresa.
O funcionário em Rio Piracicaba-MG me liga dizendo que a empresa em que ele está prestando serviços se recusou a deixá-lo entrar, e continua aguardando na portaria uma atitude minha.
O dono da empresa chega de surpresa e me sugere fechar a empresa filha, imediatamente. Argumento alguma coisa, mas ele não aceita. Já tomou conselho com outro.
O advogado da empresa liga querendo marcar reunião comigo. Pergunto o assunto, nada, é só uma reunião de rotina.
A funcionária grávida me chama porque uma nota fiscal enviada para Salvador está retida na transportadora, lá naquela cidade. Motivo: existe uma particularidade baiana quanto a faturar contra hospitais, e eu tenho que contornar o problema junto à Secretaria de Fazenda da Bahia, que inexplicavelmente não funciona antes das 14:00h.
A senhora dos serviços gerais começa então a contar uma longa história dos tempos em que ela era moça.
Enquanto leio os emails, recebo a visita de outro funcionário que se queixa de que o projeto que lhe passaram para executar está totalmente diferente do real, e que assim nao consegue produzir com qualidade.
Recebo um email de New York, da porto-riquenha que gosta de falar. Evito ligar pra ela, pois não gosto da lingua espanhola (apesar de minha ascendência) e ela é muito prolífica em palavras quando se trata de falar inglês.
Normalmente eu comunico a ela que fechamos um pacote com uma grande empresa multinacional e que ela foi escolhida como fornecedora.
Ela sempre acredita.
Ligo para Sorocaba, numa empresa de engenharia, que me deve documentos sobre arrecadação de INSS de 2003 !
Nunca me atendem com boa vontade.
A garota do financeiro me liga, no ramal, explicando que não sabe quanto tem que pagar de gratificação aos funcionários em viagem, quais os reembolsos devidos, etc.
No meu sistema de gestão está agendado : Araujo, vou me atrasar pois tenho que levar a filha à festa da escola.
Recebo um telefonema de uma empresa paulista me informando sobre curos de rede, para os quais pretendo enviar um ou dois funcionários.
Sou também um beta tester do novo formulário de nota fiscal que encomendei e que acabou de chegar. Então, toda nota fiscal eu mesmo imprimo, para conferir a diagramação e acertar no software. Hoje surgiu um problema. Foi emitida uma nota com todos os dados do cliente, exceto o CNPJ e inscrição estadual, que são indispensáveis nesse tipo de documento. Resultado: criei um relatório que ignora todas as outras informações e imprime apenas as desejadas.
Me ligam do Rio de Janeiro. Um empresário de lá me convida a passar o final de ano com a família dele. Irrecusável, mas vou pensar. No ano passado foram dois barris de chopp e cinco caixas de cerveja, pra quem não bebe bem quando está deprimido.
Outro funcionário me liga de Carajás dizendo que houve um problema com a licença do software que está instalando na rede do cliente.
Outro liga de uma cidade do interior de Minas querendo saber quanto e quando vai receber de férias.
Acabei de criar uma rotina no software que me permite saber quem está cotando pra quem e por quanto.
Esse software foi destruído por algum agente nocivo e desconhecido, faz menos de um mês. Tive que recriá-lo do nada. Antes ele até conversava com os usuários, usando a tecnologia MsAgent da Microsoft. Agora está bem mais espartano, mais eficiente e confiável. Mas sempre alguem reclama alguma coisa e isso é corrigido imediatamente.
A funcionária das compras quer que o programa informe a ela o que ela cotou, com quem, por quanto e em que época. A outra quer que o documento, se assim for a opção, seja impresso em inglês.
Outra me pede a classificação fiscal de produtos importados dos Estados Unidos. A moça de N. York nem faz idéia do que seja isso.
Estamos na hora do almoço.
Todas pedem sanduíches, pois vou passar perto da lanchonete preferida do bairro.
Após o almoço, a mesa entulhada de papéis das mais diversas naturezas, recebo a chave de um carro que estava em viagem. Consigo resolver o problema do INSS de 2003, e encaminho a documentação escaneada para o contador, que me liga de volta querendo saber se as férias de uma funcionária serão pagas em dobro.
Vem então o camarada que tem como necessidade básica é futebol e doidamente me fala que fechou grandes negócios em algum lugar do mundo. Sei que é bravata e finjo escutar. Ele não fecha negócios, mas enche a paciência dos clientes, estes sim, a ponto de não fecharem mais com a gente. Me elogia, falando que sou o melhor administrador que ele já conheceu na vida, mas eu o evito, pois ele é traiçoeiro como uma cascavel.

2005-12-12

JavaMan



public static void main(String args[]){
DaddyLovesYou sample = DaddyLovesYou();
}

Poucos momentos passamos juntos. Você aparece de repente, sem avisar, não me fala nada. Senta-se diante de uma tela, a mesma que tem sido testemunha viva de meus desvarios e medos. Então você assume a minha casa, a minha vida, muda a minha rotina. Enche meu tempo com essa ternura que por anos eu guardei. Gosta de ver os filmes que eu pacientemente acumulo para que você veja. Estou aprendendo Java para poder conversar com você na mesma língua. Nada se parece com a nossa história de dBase III, Visual Basic e Delphi.
Somos parecidos, temos um refinado paladar musical, desconfiamos de comida caseira, fugimos do convencional, falamos pouco, nossa alma angustiada procura incessantemente, dia e noite, satisfazer nossa curiosidade acerca de tudo. Regularmente recebo seus links, são as suas descobertas que deseja compartilhar comigo. Eu, em contrapartida, lhe dou o que tenho de mais genuíno, esse carinho incondicional, esse orgulho totalmente racional.
Mas você é orgulhoso também. Acha-se o máximo, e não é menos do que isso. Certa vez eu li que você me acha um super-homem. Sou seu herói, mas você é o tipo de fã que não se manifesta. Como eu iria saber então, se não fosse por acaso revistando seu velho HD de 40 Gigabytes, na época em que existiam HDs de 40 Gigabytes?
Ontem chegou de manhã na minha casa, onde consumo os meus dias sozinho. Fechou as cortinas, arrastou a cadeira vermelha, postou-se diante do meu computador e começou a investigar as notícias do mundo Java. Pouca coisa me falou, mas a nossa linguagem não se expressa através de palavras, mas de algoritmos.
Talvez eu o tenha gerado assim, com uma lógica indecifrável para muitos. Hoje você que éo meu herói, meu gênio brilhante em quem imprimi os meus sonhos. Logo vou passar, e a dimensão que me espera será um berço esplêndido para alguém que experimentou o nirvana de ter alguem como você, amigo e confidente.
Não vou escrever mais, pois você sabe que tenho uma defeito de nascença. Se eu começar a escrever sobre você, pararei somente quando as minhas cãs descerem ao chão e a luz se limitar a apenas uma réstia em olhos cansados.
Desejo a você toda a felicidade que está preparando, e mais aquela porção que Deus reservou como prêmio.

2005-11-20

Noite alucinante




 
Quando recebi aquele tiro, vi que o ginásio rodopiava ao meu lado. Eu não conseguia divisar. As luzes continuavam firmes, como para registrar o quadro grotesco que se assenhorava de nós naquele momento. Não cheguei a cair, pois a bala passou de raspão. Mas a sensação de impotência diante da necessidade básica de auto-preservação me deixava exasperado. Foi como um soco de um pugilista, o chão para mim era o tablado vazio, as arquibancadas desertas, a brisa nua entrando pela porta entreaberta. Meu agressor já se evadira, absolutamente seguro de ter dado cabo de minha vida. Ainda cambaleando, tateei o chão, sentindo o cheiro do nada que parecia despencar sobre mim.Procurei minha amiga Mariko, que tinha sido arrebatada naquele momento tão doloroso e, inadvertidamente, vi-a equilibrando-se sobre a ponte, no alto, bem perto do teto do ginásio. Não houve tempo de pensar como tinha chegado ali. Alguem movimentava a ponte. Vi seu olhar angustiado em minha direção e um sopro de voz me dizendo para me abaixar, quando ela caiu. Alguem, intencionalmente, a jogara do alto. Gritei desesperado e corri para, numa tentativa patética, amparar seus 54 quilos, mas nao consegui. Ela chocou-se violentamente com o chão, mas algo terrível ainda estava para acontecer.
Enquanto eu corria para socorrê-la, veio uma tampa de ferro, bem do alto, e a atingiu em cheio no pescoço, separando sua cabeça morena do restante do corpo. Horrizado corri para ela, tomei-a nos braços, ainda pude vislumbrar um meio sorriso, e ela tombou inerte.
Seu corpo ainda quente jazia nos meus braços. Nossos agressores tinham sumido. Havia um silêncio mortal. Uma espécie de vácuo. O ar nao se movimentava. Eu temia respirar e ferir minha amiga, que no entanto jazia morta nos meus braços impotentes. Deixei que as lágrimas acorressem, e num lapso de memória, vi os muitos momentos de alegria que desfrutamos juntos, agora interrompidos por um ato vil e covarde.
Não sei quanto tempo fiquei ali, com o coração em frangalhos. Sei que minha alma queria se apegar aquele corpo, fazê-lo meu, parte de mim, devolver-lhe a vida, torná-lo pensante, forte e pulsante. Mas fugiram de mim as forças. Novamente as coisas dançavam ao meu redor. Então desmaiei.
 
 
 
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2005-11-14

Make me fall in love







 
I know you hide yourself behind the square, since I ever think I'm locked in my cave. I don't care to catch your eyes, or to smell you neck, or to taste your lips. What is the color of your words, the weight of your breasts, the dimension of your love.
It's sad to know your name do not exist, where are you coming from, what kind of love you have to give me.
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2005-11-06

Penumbra



A penumbra que envolve o meu latifúndio me traz a angústia da solidão voluntária que abracei há dois anos. Confesso que me escondi durante esse tempo todo, fugindo aos meus amigos, que antes fugiram de mim, tornando-me invisível aos meus filhos que tão ostensivamente me ignoraram, resvalando-me nas mulheres que tão diligentemente tentaram me demover dessa obcecada loucura.
Admito, por fim, que a clausura em que me encontro, vim a ela com meus próprios pés. A chave não sei onde perdi. Por isso eu sei que nenhum remorso eu tenho direito de sentir, nenhuma compaixão eu posso manifestar, pois escolhi este caminho doloroso para purgar as minhas culpas de não ter vivido.
É de minha total responsabilidade a falta de interesse pela vida, quando o meu dia é atravessado na morosidade de quem espera. Logo amanhecerá o dia e nada será conclusivo, e isso me interessa sobremaneira.
No chuveiro eu acho graça.
Gerencio duas empresas, não instalo sistemas de rede. E hoje eu deveria estar aprendendo a instalar sistemas de gerenciamento de redes de uma grande empresa estatal, para onde estou destinado a ir na próxima semana. São Luís e Carajás. Maranhão e Pará. São os desafios do meu cotidiano. Mas há algo muito mais importante que eu deveria estar aprendendo: amar novamente.
Perdi a consciência do que é o amor, e sou eu mesmo que por tantas vezes, em quantas linhas e inúmeros versos enalteci esse câncer maligno que se chama amor, que consome docemente cada ser humano, levando-o a morrer mil vezes.
Há tempos eu não morro assim. A minha imortalidade decorre da falta de amor. Há quem mereça. As pessoas especiais que me cercam todos os dias, as que se movem ao meu redor com interesses tão claros como a luz do dia, as almas puras que expurgam a morte das minhas veias... mas não posso amar cada uma delas, ou as mataria também.
Há muita vida lá fora. Minha cidade apaixonante, minha Belo Horizonte querida, por ela eu deixei tudo, para viver um amor imortal, esse sim. Nos últimos vinte e sete anos eu amei Belo Horizonte, mesmo deixando-a tantas vezes. Envelheci aqui nesta cidade. Amadureci o meu intelecto, enterrando na cidade os meus sonhos pacifistas, as lideranças estudantis, a inteligência inata, a vontade de saber sempre mais.
Em alguns momentos eu persegui um amor. Mas se dissolveu. Parte em Londres, parte em Pará de Minas, parte em Belo Horizonte, parte em algum lugar da terra, sem jamais se concretizar como aquele amor definitivo e louco que nos fazem, homens, meninos imberbes.
Acho q o vinho já me sobe pela cabeça. Minhas palavras tendem a sairem aos borbotões, como o sangue quente de uma veia partida, derramando vida sobre a terra inerte. Desta vez, inerte é o silêncio que me envolve.
Nem as sombras do meu passado me visitam. Por isso não me incomodam mais. A incerteza do futuro é a mesma que sempre dormiu comigo. Mas o presente insosso é algo inusitado e terrível.
Amanhã serei novamente eu. Assistirei ao meu programa preferido na televisão, às oito horas da manhã de domingo, e me prepararei para me encher de conhecimentos que nao sei se algum dia usarei. Não lamento a sorte, pois fui dotado de uma sede angustiante de conhecer coisas.Por isso sou cada dia menos eu, viajando por galáxias nebulosas, de ar rarefeito, sem atmosfera, até.
Não me conheço.
Não sou mesmo esse velho rabugento que se esconde atrás da tecnologia. Sou um menino que sonha em correr na chuva, beijar a primeira namorada, escrever um tolo poema de amor e continuar viajando, viajando.
Talvez eu amanheça morto, hoje. Mas não creio nisso, pois o meu chamado nao é para a morte. E ninguém sabe mais sobre isso do que eu mesmo. Ningueém entende isso mais do que eu entendo.
Às vezes me sinto fugindo para Nínive, quando a minha redenção está em Társis.
Ou então estou realmente louco.

2005-11-02

Mimosa Live !



Dia de finados. É uma utopia dizer que meus mortos me trazem saudades, pois não os tenho. À exceção de meus antigos correligionários, poetas, planos, sucessos e dores, tudo continua vivo, e isso eu posso sentir nas minhas veias que ainda transportam a inquietude de minha alma, como se fosse um moto contínuo. Em alguns dias, menos do que eu espero, há de cessar essa atividade febril. Mas enquanto isso, ainda realizarei grandes feitos, se não para mim mesmo, mas para uma parcela da humanidade que me assiste, me ouve, me lê e me detesta.
Morreu o passado. Nele habitava Mimosa, a vaca malhada. Não consegui um retrato melhor do que este. Era um sonho de profissão, a zootecnia como opção, a agricultura como paixão, a agronomia como libação. E em sonhos psicodélicos que alvoroçavam a mente de um adolescente irrequieto, Mimosa era a personificação do esquisito, do inalcançável, do irreal, do imaginário e do maluco, tudo isso que fazia parte do meu dia a dia. Foi tema de alguns poemas sanguíneos e lúdicos.
Hoje então me lembrei, quando sozinho no meu latifúndio, precisei extrapolar os meus limites de sanidade para reviver aquilo que faz parte de mim.

2005-10-26

Tiao x Bandido



Até parece novela, mas a batalha épica entre o peão Tião Inácio, o estereótipo do povo brasileiro, contra o touro filósofo Bandido abalou a nação dos crédulos em qualquer modelo político.
De um lado, um brasileiro que ganha a vida com suor e dignidade, tentando sobreviver nesse caos de corrupção, malversação, engodos, roubalheiras que é o curral político do país. Por outro lado, o próprio governo, um touro que no seu curral determina o rumo dessa novela triste que não tem mais fim. Agora com a febre aftosa, é um perigo ainda maior mantê-lo no poder.
Na primeira chifrada do boi, o cidfadão-Tião viu sua renda se esvair. Com o cipoal de impostos, taxas e tributos que paga normalmente, foi doloroso sentir a chifrada da certeza de que seu dinheiro alimentava contas no exterior, quando nao sustentava uma quadrilha arranchada em Brasília.
Nesse caso, não adianta Nossa Senhora Aparecida continuar aparecendo. É mister que cada um tome consciência da gravidade dos fatos e faça o seu papel, aquele para o qual nasceu ou foi eleito.

2005-10-24

Referendo



Recentemente o meu país, uma republiqueta encravada na América Latina, instituiu o referendo popular para definir a vontade dos eleteitores em relação à comercialização ou não de fogões brancos. Claro que tal coisa somente acontece em países onde realmente a opinão pública é levada a sério. Mas este humilde cronista de plantão resolveu fazer algumas considerações a respeito desse tão apaixonante tema:

1º - O perigo de se usar fogões brancos - para isso pagamos altos salários aos deputados, para discorrerem sobre assuntos do interesse nacional. Haja visto que fogões brancos são os responsáveis pela violência urbana, um mal que se alastra de forma incontrolável pelo país adentro, de norte a sul, não distinguindo classe social, raça ou religião. O homem que chega em casa com a predisposição animal de jantar e não encontra anda pronto, e o fogão impecavelmente branco, logicamente será levado a dar umas bifas na esposa, companheira, empregada, namorado. Isso é até natural, nesse contexto. O filho, por sua vez, depois de colocar o tênis (comprado na melhor boutique de calçados do shopping, tendo custado oolho da cara) na máquina de lavar e, uma vez limpo, colocado o seu objeto de desejo pra secar no forno do fogão branco, a empregada Ermenegilda, desavisada, distraída e incompetente, assou o bolo do café da manhã de domingo junto com o tênis. O filho então se viu obrigado a estrangular a empregada. E assim são os casos corriqueiros de violência doméstica que espoucam em nosso cotidiano. Tem também o caso em que o homem atirou o fogão branco pela janela, atingindo um transeunte, que jamais imaginaria sendo atingido por um fogão daquela estirpe, caído do céu.

2º - Os traficantes de fogão. Uma classe sorrateira e esperta, que tem atravessado as fronteiras em vôos fretados, descarregando fogões brancos chineses nas florestas no nosso amado país e mais tarde utilizando rotas predefinidas para espalharem seu afã de enriquecimento ilícito.

2005-10-22

Sexta-Feira 14



Acordou suando frio, os nervos tensos, a preocupação estampada na forma de rugas que insistiam em se tornar perenes, apesar da idade que ele ostentava. Nada daquilo fazia sentido pra ele, no momento em que esfregou os olhos, olhou para o despertador ao seu lado. Ainda eram 5:12 da manhã. Olhou através da cortina translúcida, cor de goiaba, a luz bruxuleante da aurora invadia a sua privacidade tantas vezes violada. Levantou-se como se estivesse bêbado, caminhou titubeando até a janela, abriu-a pela metade, aspirou com força o ar de fora do apartamento. Não havia muito o que respirar. Logo ao lado passava a BR que levava ao Rio de Janeiro e Vitória, as ambulâncias começavam a ostentar a sua passagem rasgando o silêncio com suas sirenes estridentes. Levavam restos humanos para serem restaurados.
Como eu próprio - pensou.
Aprumou o corpo, ainda seminu e deixou-se envolver pelas gotas de água fria que jorravam em cascata do chuveiro. Foi quando notou que havia um cheiro dif
erente no ar. Procurou segui-lo, nada encontrando. Visitou cada cômodo do apartamento, sem nada localizar. Bobeira minha - concluiu.
Fez um café bem forte. Reparou que nao havia mais que três bolachas para o desjejum, mas nada disso o preocupou. Continuava sentindo o cheiro forte. Não vinha lá de fora. Cheirou o próprio corpo. Nada.

2005-10-10

Espelho




Toda vez em que ele me via, escondia o rosto. Parecíamos dois estranhos, mesmo sendo parte um do outro. Ele era a minha voz e eu a dele. De cada lado da rua, cada um seguia o seu caminho, à sua própria maneira. Era inusitado pensar como éramos tão diferentes, mas com algo genuinamente comum: a obstinação e o orgulho. Genioso e genial, brilhante e obscuro, ágil e lerdo, uma coleção de antígonas que poderiam nos levar a qualquer lugar, tamanha era a incerteza do nosso caminho. A inteligência que aflorava era proporcional à burrice nas atitudes, e isso o faziam cada dia mais parecido com o seu criador. Mas as marcas indeléveis de sua indeferença calaram fundo, tornando-me cada dia mais introspectivo, amargurado, acabrunhado e infeliz. Não lhe parecia importante saber ou deixar de saber do meu paradeiro. Mas pra mim era essencial conquistá-lo pra junto de mim, pois na verdade ele era uma extensão da minha personalidade.

Nao quero te encontrar

Enquanto meus olhos fogem à tua figura grotesca, que aos poucos vem se aproximando de mim, trazendo-me a lembrança de minhas perdas e indecisões, aos poucos vou me enamorando de ti, cuja aura me envolve completamente nesse manto noturno, na nossa alcova não há mais ninguém, apenas teu hálito fétido rescendendo a coisas que jamais voltarão e um futuro que jamais acontecerá. Então me deixo prender pela atração de teus argumentos, ficando à mercê de teu poder. Fica, porém, somente uma parte de mim. A outra, desde muito tempo te deixou, buscando a luz do conhecimento, a experiência do deslumbramento, a paz da solidão, a renúncia do abandono, a morte dos sentidos, o renascer da fé.
 

2005-10-04

Entre Quatro Paredes

 

O silêncio sepulcral de minha toca me confunde. A luz fátua começa a me cansar os olhos enquanto meus dedos deslizam insolentemente pelo teclado, acariciando as palavras e arrancando delas expressões inteligíveis. Daqui a pouco vou dormir, já é hora. Não sei se me levantarei desse sono, se mergulharei para sempre no nonsense da vida, na paródia malfeita de uma novela de época, na crônica urbana de um homem totalmente enredado em suas próprias teias. Minhas lembranças vão se desvanecendo lentamente. Meus filhos desapareceram, meus amigos nunca existiram, as taças de vinho que eu consumi há muito já adentraram a terra, deixando comigo apenas o gosto amargo de existir só. Perdi a graça de me lamentar, me esqueci de como é sofrer, não recordo de como é amar, se amar é tão intenso quanto esquecer. Meu último poema abortou há meio século, figura natimorta da minha vontade e insensatez. Mas ainda avanço com passos trôpegos em direção ao meu futuro que, parece, me espera na próxima esquina. Sem profetas nem oráculos, minha obstinação de viver acima de tudo vai me propulsionando em direção ao nada, e nada é o que desejo pensar agora, quando a loucura me encharca os pensamentos. Quem me conhecia, acaba de me perder. Quem me amou, que passe a me odiar. Quem me esqueceu, que continue me ignorando até o século vindouro. Preparo a minha vida com toda a meticulosidade louca de um guerreiro navajo, juntando ingredientes dessa salada infame que corrompe a moral, mas é assim que consigo enxergar a vida, nesse vai e vem de sentimentos tolos cujos nomes se ouve diariamente nos jornais e na televisão. Adormeço então sobre a minha insônia, aguardando o novo amanhecer, quando tudo o que foi planejado há de acontecer.

2005-09-26

Zé Busceta e Dona Rosa





Saí de Belo Horizonte às 10:45. A manhã resplandecia com um bom presságio. As pessoas no centro se movimentavam freneticamente em busca de escapar do que caracterizava a capital mineira, antes que sentissem saudades. Desde a antiga praça do cimento, de que eu agora não me lembrava exatamente como passara a se chamar, os camelôs apregoavam passagens para Ipatinga, Valadares e Coronel Fabriciano. Um outro mais na frente vendia para Teófilo Otoni. Não se tratava de passagem rodoviária normal, mas a possibilidade de chegar mais rápido ou não chegar nunca, a bordo de uma van, dirigida por alguém a quem as pessoas tinham que confiar as suas vidas, numa cumplicidade mórbida.
Aos poucos a cidade ficaria vazia, a exemplo do Rio de Janeiro no carnaval, o que não tinha importância para mim, uma vez que saía também, com destino a Pará de Minas.
Com um chiclete azedo na boca, pouco depois me deixava absorver pelos prédios conhecidos e impessoais da Avenida do Contorno e Via Expressa. Já os vira tantas vezes que não me importava mais com eles. E eles corriam cada vez mais rápidos, ficando para trás, junto com seus infortúnios e prazeres.
Aos poucos o carro ganhava a estrada. Começava a avaliar os cheiros que se manifestavam no interior do veículo e não havia nada neles que agradasse.
De uma forma estranha me sentia aliviado em deixar Belo Horizonte, a quem amava como aquele que sem esperanças se entrega. Mas precisava experimentar se Belo Horizonte, amante profícua, me queria com igual intensidade. Pensava nisso ao passar por Contagem e, como sempre, ansiava por atravessar logo aquela fase.
Quando o ônibus chegou em Betim, resolvi avisar que estava indo, contrariando a mim mesmo, pois planejara meticulosamente outro tipo de chegada diferente da anunciada. Queria mostrar que era educado e diferente. Parte de minha expectativa, porém, se mitigava naquele momento, pois eliminava o inusitado, e portanto não poderia surpreender nem menos a mim.
Foi aí que conheci Dona Rosa e seu filho Zé Buscetta. Resolvi dar-lhe este nome, pois era o mesmo que ele gostava de gritar o tempo todo, completamente atordoado.
Embarcaram em algum lugar de Betim. Ele completamente embriagado e ela completamente condescendente com o filho. Ele acercou-se do corredor do ônibus e encenou as caretas características de bêbado, sob o olhar atento da mãe. Ela se aproximou de mim. Pude vê-la com cuidado através dos óculos escuros. Era uma senhora de aparência saudável, porém humilde. Parecia reter consigo todos os mananciais de paciência que as mães costumam ostentar.
Acercou-se de mim, sentando-se ao meu lado, não sem antes oferecer a cadeira para o filho, que se limitava a gritar que queria cachaça, olhando perdidamente algum ponto invisível acima de minha cabeça.
Durante a viagem o que aconteceu era esperado. O filho saía de sua cadeira e vinha infernizar a mãe, gritando, provocando, proferindo palavras chulas, completamente fora de si.
Não me lembro de onde desceram, mas é certo q num lugar qualquer o veículo vomitou aquele casal estranho.

2005-09-24

Mulheres Americanas

Katrina, Ophelia, Rita. Por que será que os americanos dão nomes de mulheres aos furacões que vem com tudo, levam suas casas e carros e os deixam na lona?

Mulher

A mulher é um parque de diversões onde o brinquedo principal é a montanha russa

Um dos filhos de Emilio





Nao cabe aqui a história dos filhos de Emilio, mesmo este que vos escreve estas mal traçadas linhas. Mesmo porque além deste, outros oito filhos vivos e uns quatro mortos, a prole de Emílio se espalhou pela Terra e se tornou incontrolável como Rita, o furacão . Mas podemos fazer uma brevissima apresentação. O mais velho é médico, o segundo é um aventureiro, o terceiro administra empresas, o quarto gerencia uma transportadora. Os outros eu nao sei direito. Parece-me que um deles mora em Portugal, é só o que sei.
Pois bem, Emilio, descendente dos conquistadores mouros e dos indígenas machacalis. Dessa mistura espanhola e brasileira nasceu um homem comedido, sagaz, paciente e extremamente violento. Mas sua violência se expressava nos sonoros berros que ensurdeciam os desprevenidos pupilos de sua saga, tantos filhos aos seus cuidados.
Conta-se que Emilio, aos doze anos, profundo conhecedor das florestas das três fronteiras (Minas, Espírito Santo e Bahia), foi contratado para conduzir um rico fazendeiro até uma certa cidade, para onde nao havia caminho. Durante dias e noites Emilio desbravou a mata, abrindo um caminho para seu ilustre contratante, chegando, porfim, ao destino planejado. O homem ficou tão encantado que lhe deu uma fazenda. Se me chamarem de mentiroso eu levo no local para provar. A fazenda existe até hoje, sinal da inteligência e resistência de Emilio. Por comodidade, sua recém-adquirida fazenda fazia divisa com a fazenda de Antonia Janes, sua mãe e, pro consequencia, avó deste humilde narrador.
Convencionou-se chamar a fazenda de Paraíba. Não sei a origem de tal nome, qual a influência daquele estado nordestino na vida de Emilio.
Certo é que ele conta sobre o primeiro par de sapatos aos quatorze anos. Sim, porque como acontece hoje, ter uma fazenda nao significa necessariamente ter dinheiro. O fantasma da liquidez, ou da falta dela, sempre assombrou os fazendeiros e empreendedores de um modo geral.
Emilio se enrabichou por uma mulata de parar o trânsito. É verdade que na época o trânsito não passava de algumas carroças puxadas por plácidos bois. Os automóveis rareavam naquelas paragens. Ele conta que as pernas da mulata o fizeram perder o juizo. Numa cidade vizinha, de Minas, na mesma onde ele nasceu, essa mulata passou a tomar conta de seu pensamento e sua alma. Os volteios que ela dava com os quadris faziam Emilio se esquecer da roça que ele tinha deixado para trás. Vez por outra, inventava uma desculpa qualquer para ir a Nanuque visitar a mulata de cabelos sedosos e encaracolados, boca pequena e olhos... ah, os olhos da mulata pareciam invadir a alma de Emilio, ou de quem se pusesse diante deles.
Surgiu uma complicação. A mãe da mulata era a temível Rosa, barraqueira de profissão e barraqueira por diversão. Sim, pois Rosa adorava armar um barraco. Por um "dê cá aquela palha" ela rodava a baiana, mesmo porque era baiana, como a filha mulata que encantava Emilio. A crônica nanuquense registra que Rosa, a futura sogra de Emilio, certa vez arrastou um policial pela genitália, quando esse a desrespeitou. Mas essa era uma das mais leves façanhas de Rosa. Mas não me permito falar dela e de seus almoços servidos ao ar livre, com que eu, tímido neto, me regalava, alheio às moscas que insistiam em compartilhar comigo os quitutes da vovó. Lamentavelmente Rosa morreu , bem velhinha e solitária, em sua residência no Rio de Janeiro, muitos anos depois, depois de resistir a assaltos, atentados, incêndios, miséria e fome. Tudo isso devidamente registrado pela lágrima discreta da mulata que encantava Emilio.
Emilio achou por bem casar-se com a mulata. Arrastou-a para a fazenda e com ela construiu uma família.
Viveram um amor intenso e despreocupado. A força de trabalho da mulata, somada à disposição de Emilio, aos poucos a fazenda foi se formando. A sede foi construiída sob palmeiras reais, o curral a poucos passos, e a farinheira, como nao podia deixar de ser, a um tiro de espingarda.


..... to be continued....

2005-09-21

Operação Poseidon - Capítulo I

 Caía uma chuva fina naquela tarde. Os ventos sopravam indolentemente, salpicando agua do mar em quem se aventurasse a passar por aquele lado. Havia somente um homem com aquela disposição, na preguiça típica da hora. De aspecto rude, talvez pela barba cerrada que ostentava, emprestando-lhe um aspecto desleixado e feroz. Desceu do carro estacionado há pouco, vestiu um sobretudo à inglesa, olhou em volta como se procurasse uma paisagem familiar, sorriu para si mesmo, e começou a caminhar lentamente, apesar da garoa. O motorista, empertigado, já entrara novamente no carro de chapa branca e deixara o local. Ele amava o Rio de Janeiro. Nem a chuva que avançava verão adentro o fazia desistir desse amor incompreendido e platônico. Quando olhava as águas da baía, se sentia como se fizesse parte da paisagem, e isso lhe trazia grande satisfação. Por isso parou, cheirou o ar profundamente, sorriu novamente, e se dirigiu para um prédio antigo que era seu velho conhecido. Reparou que pequenas ondas batiam na parede de concreto, base daquele prédio. Alguns corais estava ali para demarcarem seu território. O homem conhecia muito bem aquele local. Caminhou, com passos resolutos, para a recepção. Um rapaz, trajando um impecável uniforme branco da marinha, o interpelou: - Pois não, senhor. - Olá, cabo. Sou um amigo da Almirante Kenia. - A quem devo anunciar, senhor. - Castel. Fred Castel é meu nome. - Desculpe, senhor, mas a Almirante o espera? - Certamente que sim. Ela me chamou. - Nada me foi informado, senhor - tornou o solícito marinheiro - Pois não posso ajudá-lo. Sei o caminho. Não precisa se incomodar. - Mas senhor... E Fred Castel já entrava pelo corredor estreito que conhecia muito bem. Sabia onde este ia dar e, sem cerimônia, continuou seu caminho, deixando para trás o perpelxo cabo. Ao fim de alguns passos, chegou à porta dos aposentos da Almirante. Bateu delicadamente, sem ouvir resposta. Esperou um pouco e bateu novamente. Nada. Torceu a maçaneta e entrou. No interior do aposento reinava uma luz fraca. O ambiente estava praticamente na penumbra, mas ele conhecia muito bem onde pisar. Dirigiu-se ao bar, serviu-se despreocupadamente de uma generosa dose de uísque, que sorveu de um só gole, e preparou-se para a espera, quando ouviu um ruído vindo de outra dependência. Dirigiu-se para o local. Era o banheiro. Aproximou-se, sem qualquer tipo de cuidado para não chamar a atenção, acercou-se do box onde um vulto fazia movimentos rítmicos através do vidro translúcido. ---- to be continued ----------

2005-09-13

Comfortably Numb


Hoje fui brindado com uma das músicas que mais tocam o meu coração, a canção perfeita, que resolvi colocar aqui.


Pink Floyd

Comfortably Numb


Hello.
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me.
Is there anyone home?

Come on, now.
I hear you're feeling down.
Well I can ease your pain,
Get you on your feet again.

Relax.
I need some information first.
Just the basic facts:
Can you show me where it hurts?


There is no pain, you are receding.
A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move but I can't hear what you're sayin'.
When I was a child I had a fever.
My hands felt just like two balloons.
Now I got that feeling once again.
I can't explain, you would not understand.
This is not how I am.
I have become comfortably numb.


Ok.

Morte e Vida Severina




Confesso, acabrunhado, que ainda não li João Cabral de Melo Neto, apesar de ter lido resenhas e resumos. Perdi o tesão pela minha novela preferida,a CPI DO MENSALÃO, uma vez que as coisas não saem do lugar, como se fosse uma rosca contínua. Suspeita-se, investiga-se, denuncia-se, defende-se, incrimina-se, tapeia-se. E de repente a figura número um não é o nosso atabalhoado presidente, cético, surdo, mudo e cego, mas a carismática criatura chamada simplesmente "Severino".
Todo mundo ficou chocado quando ele, dando um banho no governo, assumiu a presidência da câmara, vulga "Parlamento". Todo mundo sabia que não se podia esperar grandes coisas de um homem com instintos nepotistas tão salientes. Todo mundo sabia que ele seria o sucessor do presidente em situações que assim exigissem.
Mas ele continua no auge da fama. Agora como agente do mensalinho. E de repente os jornais televisivos não se referem mais ao mensalão. Perdeu a graça. E entendo porque: uma pessoa como Severino foi o que todos ali usaram para abafar o mensalão.
Mas já estou cansado dessa história.
Olho pra meus pé e pergunto-lhe: este é o meu país? Onde estão as pessoas decentes que outrora existiram? Onde estão as pessoas que seriam cópias morais perfeitas de meu pai e minha mãe?
Considero-me perdido, como muitos brasileiros estão, nesse oceano de lama que se tornou a vida pública no meu país. Confesso que, se me perguntarem se sou brasileiro, é capaz de se ouvir que eu sou marciano.
Pois bem. Tomei então algumas decisões para evitar o caos na minha mente, já muito combalida pelos meus fantasmas particulares:
1 - Cancelei a assinatura do Globo
2 - Não ligo mais a televisão, a não ser para o Globo Rural
3 - Não comento sobre política, religião e sexo (abri uma exceção somente hoje)
4 - Atiro uma rosa vermelha, daquelas que simbolizam o amor, para a Velhinha de Taubaté.
E encerro aqui o meu assunto.
Certamente meu irmão cartunista vai ler e postar um comentário:" Cadê o final da história, cadê a moral da história". A resposta: sei lá. Vamos esperar pra ver no que dá.

2005-09-11

Domingo




Não. Ninguém tem mais paciência em escrever ou ler alguma coisa sobre os domingos. Eu também não vou cansar ninguem com esse assunto tão maçante. Então vou tecendo meu monólogo de hoje, trazendo à tona remininscências da época de estudante. Acordávamos tarde, na pasmaceira de uma manhã em Campos, no estado do Rio. A sombra nevoenta da preguiça aos poucos tornando os movimentos mecânicos. Alguem tinha quer ir à padaria e realizava-se uma espécie de roleta russa de padaria. Esta distava um quarteirão, mas era como se estivesse no Japão. Do outro lado da rua da padaria ficava o boteco onde era costume jogarmos sinucão. Nem uma coisa nem outra aos domingos. Era um dia exclusivo de dedicação a não fazer nada.
Pensando bem, talvez não seja uma boa idéia escrever sobre domingo tão longe na época. Mesmo que aqui seja Brasil, e brasileiros não se preocupam TANTO com o passado de suas personagens como os americanos: "Extra, o presidente já ficou pelado quando bebê. Impeachment nele!!".
Vou continuar de teimoso.
Pois bem, onde é que eu estava? Ah sim, na padaria. O café, por mãos masculinas, não tinha graça nenhuma. Um dos rapazes da república era jeitoso com o fogão. Falava fino às vezes, mas fingíamos ignorar o fato, pra não render conversa.
Dois poetas, um artesão, um agricultor, um político. Nas células vizinhas havia todo tipo de gente e lugar. E essa miscigenação era salutar, uma vez que discutíamos assuntos diferentes.
Mas aos domingos, bem, aos domingos a tendência era ficar perambulando pela rua, sem nada pra fazer. Os mais corajosos se aventuravam a assaltar o pomar da escola, a uns quatro quilômetros dali. Havia os mais radicais, que colocavam uma cadeira à porta da casa e encostavam um radinho de pilha, daqueles que chiavam (hoje proleferam pra todo lado, imagino se alguem ainda compra), pra ouvir futebol.
A tristeza de ouvir futebol no rádio não se comparava à expectativa de chegar ao fim de um dia tão apático, morto até.
Num desses domingos, um de nós foi ao supermercado, no centro. Olhou todas as gôndolas e, por incrível que possa parecer, não encontrou nada do seu agrado. Dirigiu-se então à saída, quando foi abordado pelo segurança, um mulato de quase dois metros, como tem que ser todo segurança de histórias verídicas. Me contaram que nosso amigo se acovardou diante do porte da lei. Mas a delicadeza do segurança o cosntrangeram a ser gentil.
- E aí, seu ladrãozinho. O que tá levando aí ? - perguntou o brutamontes
- Eu? O senhor ficou maluco? Tá me ofendendo.
- Você ainda não viu nada. Seu safado, gatuno.
- Vou te processar, moço. Tá me caluniando. Tá todo mundo olhando pra cá.
- Que olhem, seu gatuno de meia tigela.
- O senhor sabe com quem tá falando? Sou estudante de agropecuária da Federal.
- E eu com isso?
- Você com isso porque sou de respeito.
- Sei. Vams logo ali no reservado falar com o gerente.
Não teve jeito. Nosso amigo foi levado ao gerente, um homem atarracado e de maus bofes, como diria Machado.
- Então o senhor é o estudante que foi apanhando roubando na loja!
- Não estou entendendo onde vocês querem chegar. A única coisa que acertaram é que sou estudante.
- E ladrão.
- Isso não. Não estou desrespeitando ninguem.
- Claro que não. A constituição federal não é "ninguém". Esvazie os bolsos, antes que eu chame a polícia.
- Se é assim que querem, vou fazer, mas aviso, não encontrarão nada.
Somando atitude às palavras, o estudante esvaziou os bolsos. Nada havia além da carteira com o dinheiro da passagem de volta e a carteirinha da Escola Federal de Agricultura.
Mas foi instigado a se deixar revistar. Realmente não tinha nada nos bolsos. Mas nas meias e nos canos das botas foram encontrados vários itens de pequeno valor, tipo pasta de dente, escova, caneta, barbeador descartável, quinquilharias. O constrangimento foi inversamente proporcionalao valor dos objetos. Mas recebeu conselhos do gerente enjoado, e despachado pra casa.
Quando chegou em casa, ainda teve a cara deslavada de nos contar sua desventura. Mas ninguém mesmo tinha essa coisa chamada vergonha.
E acabou que nem falei exatamente do domingo, e ele está acabando. Só me resta ver o Fantástico, enquanto termino essa conversa mole.

2005-09-09

El Fedor em Nanuque



Pocotó. Pocotó. Que diabos será isso? Alguem quebrando pedras? Um homem balançando a ferramenta? Um disco voador não identificado? Nada. É o anúncio da cehgada de EL FEDOR EM NANUQUE.

São aproximadamente três da tarde. O sol pegajoso e abrasador parece sugar a vontade dos homens, como um vampiro monumental, arrancando faíscas do chão de paralelepípedos, onde proliferam os vermes aeróbios, e onde os cães, figuras nativas do lugar, não podiam coçar suas sarnas. Um deles, por sinal, dormita molemente à sombra de uma casa escolhida a esmo. Ao fundo da rua principal, na entrada da cidade, vem se avolumando a figura negra e grotesca de um cavaleiro.
Seu porte alto e esquelético, sua cor trigueira, os lábios cerrados, cabelos escorridos e incrivelmente negros lhe dão uma aparência estranha. As poucas pessoas que transitam naquela hora ficam arrepiadas com a figura sinistra.
Na sua cintura balouçam um revólver de cada lado, lustrado e bem cuidado. Ferramenta de trabalho, pelo que denota.

...to be continued

2005-09-08

Viagem Insólita



De repente meu olhar se detem num horizpnte longínquo, fora do campo visual da minha razão. E meus músculos lassos travam, diante de uma caminhada de que não sei se estou no começo ou no fim, sabe-se lá onde fica o meio, mas num vislumbre de minha loucura percebo que há um brilho no espaço. Talvez não se refira a mim, mas à minha consciência que, a essa altura, se apartou de mim, fazendo-me demente e ansioso. Onde deixei minha inteligência, minha sensibilidade, minha arte? Não sei, e tenho certeza de que ninguém saberá me dizer. Sigo então, tateando, na penumbra da minha obscuridade, mas reconhecendo o terreno, onde penso que já pisei. Logo estarei num lugar insólito, fazendo algo que eu nem imagino.

2005-09-06

Vida de Cachorro

 

Já foi há muito tempo quando se falava da vida de cachorro como sendo a pior existência que se podia imaginar. Os antigos vira-latas, esquálidos, sarnentos, revirando latas para conseguir algum alimento, eram o quadro deprimente de uma sociedade emergente. Mas daí começou um movimento, como uma onda, tentando dar um pouco de dignidade (?) aos animais que são considerados os melhores amigos do homem (inclusive os pitbulls, rotveilers e filas). Minha avó me contava de um certo cachorro da família, que morreu aos dezoito anos, portanto já bem experiente. Chamava-se VenceTudo, era branco como uma ovelha branca, pêlos lisos, e tinha como peculiaridade a mansidão, apesar do nome. Vim a saber, mais tarde, que ele ganhara o nome porque, além de ser o guardião da fazenda, por essa razão havia sido atropelado, o que o fizera mancar um pouco, e levara um tiro no olho, que o tornara cego de uma das vistas (não me pergunte qual). Nada se comparando ao yorkshire de Gisele Bunchen ou daquela socilite carioca Loyola, e a tantos outros cães famosos que conhecemos. Então veio a Suipa, no Rio, para minimizar os desmandos da carrocinha, o terror dos cães urbanos. Mas vida de cachorro hoje, em pleno século 21, não é mais a mesma coisa. A Lei do Pitbull, no Rio, é uma prova disso. Pacíficos e mal-encarados cães de estimação de repente entraram na mídia de forma nervosa, tornando seus donos infratores contumazes. Eis a situação: - Tirano ! Tirano ! - chama o Dr. Celso, desembargador carioca - Vem logo ! - Peraí, meu chapa - responde o Pitbull, acabando de traçar um rosbife (ou preferem roast-beef?) - Não temos tempo. O CAC tá vindo aí. Depressa ! - Impacienta-se o irreprimível senhor. - Que droga é essa? CAC ? - rosna o cão, um pitbull atarracado, com cara de mau, pesando uns 99 quilos. - CAC, seu animal, é o Comando Anti Cachorro, nova divisão da polícia carioca. - Ué, nós agora que somos os bandidos ? - surpreende-se Tirano. - Pra você ver. Mas deixa de papo e venha logo. Temos toque de recolher. - Calma, Bete. Quero entender primeiro. Bandidos mandam e desmandam, corrompem a polícia e outras autoridades, impõem um poder que não é mais paralelo, são filmados, documentados, presos e soltos, revrenciados por astros do esportes, e nós é que levamos a culpa? - Tirano, isso é Brasil, meu amigo. - Ah é? E onde eu posso viver simplesmente sendo um cachorro honesto e trabalhador, cuidando da minha família, trabalhando no meu emprego decente? - Acho que já estão colonizando a lua. Próximo vai ser Marte. - Demora muito. Os americanos, que são donos do espaço lá fora, estão preocupados com o Katrina, agora. - Eu sei, seu burro, mas Bush não está. Você tem chance. - Se eu for, o que será de você então, sozinho aqui nesse Brasil cheio de cachorradas em Brasília. - Irei com você. Quem sabe você me arranja uma casinha no fundo do seu quintal e me alimenta com uma boa ração lunar? - É, pelo menos banhos de lua não vão faltar. - Agora chega. Vamos. - Tá bom, tá bom. Que saco ! - Pegou seus acessórios todos? - Conferindo: Focinheira, ok. Enforcadeira, ok. Caganeira, ok? Pra que droga serve essa tal de caganeira? - Seu animal. Pra que você acha que serve? Anda logo. Ou você acha que vou sair atrás de você com um saquinho plástico e uma pazinha catando bosta sua? Sou um homem de respeito. - Sei. O Juiz Nicolau também era. Aquele que matou o vigia lá em Sobral também. - Respeita. Aqueles eram uns cachorros. - Epa. Não me ofenda. - Apanhou o boné, a punheteira, os óculos escuros ? - Não estou entendendo mais nada. Estamos a quase uma hora da madrugada.... - O boné, seu burro, pra você não pegar resfriado, pois veterinário tá caro pra cachorro, a punheteira pra você proteger seus punhos, ou patas, como queira, na falta de sapatos (nunca ouvi dizer que cachorro usa sapato, a não ser nas histórias de Jeca Tatu - coisa bem antiga). - E os óculos? - Pra disfarçar de turista. Vamos que o CAC nos aborda na rua, você começa a latir em inglês e mostra seu passaporte britânico.

2005-09-03

É isso aí, companheiro Gabeira




Nunca antes ouvi um político expressar o sentimento do povo de uma forma tão cabal e poética quanto o nosso companheiro Gabeira, carioca como eu, cidadão do mundo como nós, exasperado com a forma de conduzir o Parlamento que vem sendo utilizada pelo nosso emérito Severino. Fosse eu capixaba, como sou, ou mineiro, como sou, ou até mesmo baiano, como sou, meu apoio a Fernando Gabeira seria amplo, geral e irrestrito. Fico somente imaginando que interesses movem aqueles que compactuam com os desmandos daquele que, para nosso infortúnio, é o terceiro na escala da sucessão presidencial, em caso de impedimento do titular e do vice. Nem quero imaginar a balbúrdia que seria esse país já tão duramente castigado pela criatividade de alguns poucos. Vossa Excelencia Gabeira se expressou corretamente ao se dirigir à Sua Excelência o presidente da Câmara Federal. O meu desejo que todos os brasileiros conscientes (ainda existem) façam coro a essa demonstração de amor à pátria.

2005-09-02

As Virgens de Suazilândia



A figura imponente do rei Mswati III, senhor dessa grande nação africana, manejando o seu cetro em riste, apontando os seios hirtos das virgens, cuja grande paixão não era necessariamente desfrutar da alcova real, mas a de pilotar uma BMW, ao mesmo tempo falando ao celular de ultima geração. Seu criterioso exemplo de pompa e realeza lembram antigas histórias que nos contavam quando meninos, e que nós mesmos lemos sob a batura de Hans Christian Andersen. Transportadas para o mundo real, tornam-se um quadro patético em que mulheres, ou aspirantes a mulheres, são praticamente desnudas diante de um olhar apático de um rei medieval. São mercadorias expostas ao gosto do freguês, como os paios pendurados em antigos empórios feudais. É uma pena que ainda existam mentes desse calibre, promovendo a corrida do ouro de uma forma tão inusitada e mesquinha. É de se lamentar que tantas jovens se submetam a tamanha humilhação para serem uma a mais no harém do rei, em troca de algumas migalhas financeiras. Está inaugurada a nova concepção do sexo por dinheiro. Será mesmo que rola alguma coisa depois? Nós somos a fortaleza.

Katrina



Como pudeste me enganar dessa maneira tao torpe e vil, minha querida, cujo nome evoca prazeres embalados em nenúfares perfumados! Antes que chegasses, tua vinda me provocava calafrios, pois eu sabia que me envolverias e teu sopro me tiraria o fôlego, teu abraço me tolheria os movimentos, teu beijo me faria fugir da vida. Bem que eu me preparei para o nosso encontro definitivo, mas nao avaliei como tua envolvente passagem poderia influenciar o meu destino. Logo eu, um pacato cidadão de New Orleans, dedicando-me exclusivamente à memória do Jazz, fingindo ser culto no meio da balbúrdia musical que assola o mundo. E entao vieste com tua força, arrebatando-me, invadindo minha casa, esmagando meu carro e minha vida, reduzindo tudo a pó. Foi doloroso perceber a tua traição, ó pérfida amante. Não era necessário chegares ao extremo que chegastes. Bastava dizeres que eras bela e forte, e que qualquer homem poderia ser subjugado pelo teu charme maldito. Roubaste-me a paz, meus filhos, minhas esperança, minha comida, meu trabalho. Cobriste de catástrofe a minha densa realidade. Coroaste-me com o prêmio que eu nao desejei receber. Hoje nem sei quem sou, entre tantos sinais de tua arrojada passagem, de tua tempestiva jornada. Não me deixaste muita coisa, e custo a acreditar que ainda estou vivo.

2005-08-31

A Apologia do Caos


Certa vez um presidente. Não era um presidente qualquer, como muitos que a gente encontra por aí. Não tinha o carisma de alguem como Hugo Chavez, nem a fraqueza de um George W. Bush. Não tinha a expressão lúdica como Itamar Franco, nem a ostensividade de um Collor, nem o espírito humanitário de um Hitler e, indo mais longe, a consciência tranquila de um Nero, que sequer era presidente. Mas este era diferente, porque nunca sonhou em ser presidente. Num desses movimentos que ninguem entende mesmo, as massas o elevaram ao posto máximo no poder e ele passou a governar aquela nação estranha.
Sua maior peculiaridade era que ele nao sabia. Passou a infância toda em Marte, onde nao tinha escola, e nao foi informado sobre o que ocorria na terra. Desse modo, nao sabia que a capital do Brasil nao era Buenos Aires, nem que a fórmula de Eisten transformava homens em almas, nem que o mundo caminhava independentemente de suas decisões. Ele ignorava. E era cômodo ignorar. Naquela republiqueta onde qualquer coisa podia acontecer, o mais provável era que o resto do mundo fizesse piadas. Mas entao o nosso homem era especialista em piadas. A última foi assassinar verbalmente um presidente, um notável estadista que aquela nação ousou eleger para construir a sede do seu governo.
O homem que nao entendia, passou a entender menos. Tudo o que ele nao conhecia, passou a ignorar mais veemente. O que ele venerava, passou a exorcizar. Flertou com o seu inimigo, esquivou-se do seu destino, estabeleceu-se como um marco da ignonímia e da balbúrdia. Era o ícone maior.

O Chupador da PUC


Na prova de matemática, com a lógica simples que transcorria prazeirosamente, ele deu uma chupada longa e sonora.
Olhei-o, instintivamente, com uma irritação ostensiva, mas ele não se tocou. Estava na carteira atrás de mim e mamava distraidamente uma garrafa de água com a estampa PHDBH. Gordinho, com um irritante boné com a aba para a esquerda, a camiseta preta com uma enorme estampa do Iron Maiden, com o Eddie em evidência. No nariz e nas orelhas pendiam argolinhas brilhantes. Devia ter uns dezoito anos. Por um momento fiquei curioso em saber seu nome, que estava disponível na carteira de identidade que ele deixou presa ao celular, no porta-giz da sala de aula. Merecia uma crônica, mas desisti do nome e da crônica, pois ele sorvia aquela água cheia de baba, de novo.
Já ouvi falar que as pessoas comem chocolates, tomam cachaça, fazem qualquer coisa pra relaxar na hora do vestibular, mas nunca soube que levavam garrafas de água para beberem durante a prova. E que ficavam daquela forma chata e nojenta atrás da gente.
Ora, cada um tem sua peculiaridade. Eu dormi e sonhei, pouco antes da prova. Sonhei algo absurdo como uma ocorrência policial em que eram algemados alguns cafetões que, ao meu ver, são personagens de folhetins, da Hilda Furacão, do Drummond, e não existem mais.
Acordei com a chupada irritante do Chupador da PUC. Bem na hora, pois eu tinha terminado as provas e preenchido a folha de respostas. Mas ele continuava lá, com aquela garrafinha inquietante.
Planejei então, para o dia seguinte. Não deu tempo de almoçar, então comi sanduíches de salaminho, daqueles italianos, que vem a todo momento à tona, não nos deixando esquecer deles.
Não deu certo.
Quando me assentei na mesma carteira do dia anterior, não havia ninguém mais na sala. Deu pra dormir de novo. Quando acordei, como um pesadelo, estava o Chupador com sua indefectível garrafa.
Fiz todas as provas. A caneta infame que eu trouxe me deixou chateado. E a todo momento o camarada sorvia sua mistura mineral.
Antes de pular no seu pescoço e estrangulá-lo, resolvi sair. Fim de vestibular.
Saí.
Pois foi lá fora que me surpreendi. Dezenas de outros candidatos portavam uma garrafinha igual ao meu vizinho. Olhei um a um raivosamente, como um Pitbull acuado.
Desci a rua, atravessei a praça e olha só com que me deparo: várias moças, todas uniformizadas com a marca PHDBH, assentadas num restaurante, batendo papo, alheias à vítima que fizeram e que neste momento passava, lançando-lhes um olhar fulminante, que nem mesmo entenderam
Que o Chupador da PUC reprove, pois não agüentarei vê-lo estudando DIREITO ao meu lado direito.
Ou esquerdo.
Ou na retaguarda.
Ou onde for._
H

2005-08-28

Incidente no Minas Shopping


Naquela sonolência de um tarde de sábado em Belo Horizonte, o shopping modorrento de preguiça, as pessoas desfilando como se deslizassem numa esteira rolante invisível, em câmera lenta, de repente um alerta:
- Atenção todas as unidades, câmbio ! –
- Atenção todas as unidades, câmbio ! –
Abriu um olho apenas para observar, mas não conseguiu divisar direito. A voz autoritária continuava a berrar no walkie-talkie:
- Atenção todas as unidades, câmbio ! Derrame de pó branco.
Os curiosos de plantão começaram a acorrer e, em poucos segundos, uma pequena multidão se acotovelava diante da mulher negra, trajando um impecável uniforme azul, com as pernas arqueadas, o rádio na mão, um olhar austero, chamando todas as unidades.
Operação de guerra, alguém achou cocaína no shopping – concluiu o pachorrento observador, e voltou a cochilar, pois tal assunto não merecia especial atenção, de tão corriqueiro.
Mas a mulher não desistia de sua chamada escandalosa:
- Temos uma situação de risco aqui no piso 2. repito: situação de emergência no piso 2. em frente à loja Dadalto. Preciso de apoio, cambio.
A multidão olhava, sem entender nada. A mulher negra impunha sua autoridade e não desistia dela, nem quando chegou um homem forte, negro, usando um uniforme em outro tom de azul, que trocou breves palavras com a mulher.
Foi então que ficou visível o objeto de tamanha apreensão. Um extintor de incêndio, por ação de uma facção terrorista de nacionalidade indefinida, foi posto abaixo num ato de pura irresponsabilidade, com a cruel intenção de respingar o pó branco em quantos ali passassem, tornando-os meio palhaços.
Nesse momento chegou uma humilde, discreta e brancamente uniformizada moça com uma pá e uma vassoura. Pediu licença à multidão, aproximou-se da comandante negra, ouviu suas instruções, ditadas a ela como se estivesse muito mais longe do que realmente estava. Aquiesceu, cabisbaixa, e iniciou seu trabalho, metodicamente. Juntou o pó alvíssimo espalhado ali, apanhou-o com a pá, colocou numa sacola preta e sumiu por uma porta lateral, sem ao menos ser ovacionada pela multidão. Mas ela não viu que um dos transeuntes, munido de uma indiscreta câmera digital, disparou o flash bem no momento em que ela se curvava diante de seu afã de fazer desaparecer o pó.
O homem negro seguiu-a, por sua vez, empurrando um carrinho com o extintor contraventor, e não foram vistos mais.
A mulher negra explicava pra imprensa, representada pelos curiosos que ali se acercavam, sobre como aconteceu o derramamento de pó ABC, do extintor daquela área. Seu peito arfava de orgulho, contando como, em poucos instantes, conseguira debelar o fogo da desordem, apenas com seu walkie-talkie e seu tom de voz.
Ninguém a aplaudiu, se era isso o que ela queria.
Aos poucos, os transeuntes voltaram à sua rotina de olhar as vitrines, e o homem que a tudo assistia, voltou a cochilar no sofá macio, esperando a namorada que não vinha.

2005-08-23

Prosaico

Nasceu