

Lembro-me de ter visto um filme há muito tempo (não vou dizer quanto pra ninguem especular minha idade, embora eu não esconda que sou um garoto), em que um pacato cidadão, indo para o seu trabalho, acabava se envolvendo em vários acontecimentos inusitados, tornando-se uma máquina de matar.
Não vou me inspirar no filme. Aliás, nem sei porque eu o citei aqui nesse post (antes era crônica, agora se chama post), mas um dia de fúria (era o nome do filme) não tinha final feliz.
Paralelamente, e invariavelmente, depois do desjejum diário (de que nem sempre eu me lembro) ando os quatro quarteirões que me separam do trabalho. Que me invejem os mortais, mas eu vou a pé para o trabalho e ainda almoço em casa!! Isso é Belo Horizonte !!!
Pois bem, chego primeiro, abro a firma e a primeira providência é fazer um backup do software de gerenciamento que eu mesmo criei. Não confio no backup automático do servidor. Esse software tem uma história. Eu o construí em pleno vôo, quando cheguei à empresa e encontrei registros financeiros e contábeis feitos a caneta em arcaicos livros pretos.
Minha função: gerente administrativo e financeiro. É um conceito vago a administração. Muito difícil de fazer as pessoas entenderem. Houve época em que me invejavam, pois o meu cargo tinha um certo nome, eu andava com um carro da empresa, etc., mas depois, quando passei a ganhar a metade do salário do meu funcionário mais idiota, ninguém mais se interessou em me destronar.
Normalmente, depois do backup, eu crio algum módulo adicional. Hoje mesmo criei um analisador de produtos vendidos, um calculador de ICMS a recolher, um transferidor de saldo bancário, além de uma série de outras coisinhas miúdas de quem nem me recordo.
Feito o backup (ainda estamos nele), a próxima meia hora fica por conta de me levantar e abrir o portão eletrônico (afinal a empresa é de eletrônica) para os funcionários. Dois deles chegam invariavelmente atrasados, mas um é primo do dono, e a outra é a preferida do dono, portanto, não posso mexer.
Pronto. Chegaram todos. São 9:00. O tal primo fala em voz alta sobre a novela da noite anterior. A minha sala é exclusiva, mas tenho que aturar esse papo furado sobre novela e, pior, futebol. É uma pessoa que apregoa que a necessidade básica de um homem é futebol. Sim, ele é doido.
Recebo uma ligação de São Paulo. Uma senhorita muito educada me ameaça com seu departamento jurídico porque eu ainda não registrei o nome comercial da empresa no INPI. Tem mais gente interessada.
O contador liga me pedindo instruções sobre como proceder com o ICMS, uma vez que está sendo ajustado de última hora.
Uma grande companhia mineradora me liga de São Luís, no Maranhão, me dizendo que existem peculiaridades nunca vistas antes para o pagamento de faturas emitidas contra a tal empresa.
O funcionário em Rio Piracicaba-MG me liga dizendo que a empresa em que ele está prestando serviços se recusou a deixá-lo entrar, e continua aguardando na portaria uma atitude minha.
O dono da empresa chega de surpresa e me sugere fechar a empresa filha, imediatamente. Argumento alguma coisa, mas ele não aceita. Já tomou conselho com outro.
O advogado da empresa liga querendo marcar reunião comigo. Pergunto o assunto, nada, é só uma reunião de rotina.
A funcionária grávida me chama porque uma nota fiscal enviada para Salvador está retida na transportadora, lá naquela cidade. Motivo: existe uma particularidade baiana quanto a faturar contra hospitais, e eu tenho que contornar o problema junto à Secretaria de Fazenda da Bahia, que inexplicavelmente não funciona antes das 14:00h.
A senhora dos serviços gerais começa então a contar uma longa história dos tempos em que ela era moça.
Enquanto leio os emails, recebo a visita de outro funcionário que se queixa de que o projeto que lhe passaram para executar está totalmente diferente do real, e que assim nao consegue produzir com qualidade.
Recebo um email de New York, da porto-riquenha que gosta de falar. Evito ligar pra ela, pois não gosto da lingua espanhola (apesar de minha ascendência) e ela é muito prolífica em palavras quando se trata de falar inglês.
Normalmente eu comunico a ela que fechamos um pacote com uma grande empresa multinacional e que ela foi escolhida como fornecedora.
Ela sempre acredita.
Ligo para Sorocaba, numa empresa de engenharia, que me deve documentos sobre arrecadação de INSS de 2003 !
Nunca me atendem com boa vontade.
A garota do financeiro me liga, no ramal, explicando que não sabe quanto tem que pagar de gratificação aos funcionários em viagem, quais os reembolsos devidos, etc.
No meu sistema de gestão está agendado : Araujo, vou me atrasar pois tenho que levar a filha à festa da escola.
Recebo um telefonema de uma empresa paulista me informando sobre curos de rede, para os quais pretendo enviar um ou dois funcionários.
Sou também um beta tester do novo formulário de nota fiscal que encomendei e que acabou de chegar. Então, toda nota fiscal eu mesmo imprimo, para conferir a diagramação e acertar no software. Hoje surgiu um problema. Foi emitida uma nota com todos os dados do cliente, exceto o CNPJ e inscrição estadual, que são indispensáveis nesse tipo de documento. Resultado: criei um relatório que ignora todas as outras informações e imprime apenas as desejadas.
Me ligam do Rio de Janeiro. Um empresário de lá me convida a passar o final de ano com a família dele. Irrecusável, mas vou pensar. No ano passado foram dois barris de chopp e cinco caixas de cerveja, pra quem não bebe bem quando está deprimido.
Outro funcionário me liga de Carajás dizendo que houve um problema com a licença do software que está instalando na rede do cliente.
Outro liga de uma cidade do interior de Minas querendo saber quanto e quando vai receber de férias.
Acabei de criar uma rotina no software que me permite saber quem está cotando pra quem e por quanto.
Esse software foi destruído por algum agente nocivo e desconhecido, faz menos de um mês. Tive que recriá-lo do nada. Antes ele até conversava com os usuários, usando a tecnologia MsAgent da Microsoft. Agora está bem mais espartano, mais eficiente e confiável. Mas sempre alguem reclama alguma coisa e isso é corrigido imediatamente.
A funcionária das compras quer que o programa informe a ela o que ela cotou, com quem, por quanto e em que época. A outra quer que o documento, se assim for a opção, seja impresso em inglês.
Outra me pede a classificação fiscal de produtos importados dos Estados Unidos. A moça de N. York nem faz idéia do que seja isso.
Estamos na hora do almoço.
Todas pedem sanduíches, pois vou passar perto da lanchonete preferida do bairro.
Após o almoço, a mesa entulhada de papéis das mais diversas naturezas, recebo a chave de um carro que estava em viagem. Consigo resolver o problema do INSS de 2003, e encaminho a documentação escaneada para o contador, que me liga de volta querendo saber se as férias de uma funcionária serão pagas em dobro.
Vem então o camarada que tem como necessidade básica é futebol e doidamente me fala que fechou grandes negócios em algum lugar do mundo. Sei que é bravata e finjo escutar. Ele não fecha negócios, mas enche a paciência dos clientes, estes sim, a ponto de não fecharem mais com a gente. Me elogia, falando que sou o melhor administrador que ele já conheceu na vida, mas eu o evito, pois ele é traiçoeiro como uma cascavel.